segunda-feira, 26 de novembro de 2018

SINSÆNUM - Repulsion for Humanity


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. Repulsion for Humanity
2. Final Resolve
3. Sworn to Hell
4. I Stand Alone
5. Rise of the Light Bearer
6. Manifestation of Ignorance
7. Sacred Martyr
8. My Swan Song
9. Nuit Noire
10. Insects
11. Forsaken


Banda:


Sean Zatorsky - Vocais
Attila Csihar - Vocais
Frédéric Leclercq - Guitarras, baixo, teclados
Stéphane Buriez - Guitarras
Heimoth - Baixo
Joey Jordison - Bateria


Ficha Técnica:

Stéphane Buriez - Produção
Frédéric Leclercq - Produção
Sinsænum - Produção
Francis Caste - Mixagem, masterização
Lauren Hart (ONCE HUMAN) - Vocais em “Sacred Martyr”
Pierre le Pape - Orquestrações em “Forsaken”
Tambours du Bronx - Percussões em “Final Resolve”
Travis Smith - Artwork


Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: “Metal Mark” Garcia


Em 2016, o mundo do Metal levou uma enorme sacolejada: estava surgindo um projeto musical que reunia músicos que passaram por nomes como METALLICA, MINISTRY, SATYRICON, SLIPKNOT, ROB ZOMBIE, LOUDBLAST, DRAGONFORCE, MAYHEM, TORMENTOR, ABORYM, KEEP OF KALESSIN, entre outros. Óbvio que muitos fãs de Metal ficaram na expectativa do que o SINSÆNUM, um esforço colaborativo internacional (com músicos dos EUA, França e Hungria) poderia oferecer, e os ouvidos de muitos ficaram apitando devido ao primeiro disco deles, “Echoes of the Tortured”, de 2016. Mas quem pensou que o projeto ficaria só naquele álbum pode ir mudando o discurso: lá vem o sexteto de novo descendo a marreta em “Repulsion for Humanity”, segundo “full length” deles, e que chega ao Brasil pela parceria da Shinigami Records com a earMUSIC.

Comparando os dois trabalhos, se percebe apenas que “Repulsion for Humanity” soa mais maduro que seu antecessor, mais consensual e com sua música se apresentando mais sólida. Ainda é o mesmo Death/Black Metal de antes, cheio de energia e com boa dose de técnica, com ótimas mudanças de ritmo e certo toque “Old School Death Metal” no que se refere aos solos de guitarra. A diferença maior é que as melodias soturnas de antes ficaram mais evidentes, dando um acabamento melhor às canções. Mas não se preocupem: o nível de qualidade continua o mesmo, se é que não melhorou!

É, podem preparando os pescoços, pois é impossível segurar a cabeça quando esse disco começa a tocar, tamanha empolgação que flui dele.

Fonte: @maximetaccardiartworks
Como se pode esperar de um grupo com integrantes tão calejados, óbvio que a qualidade sonora de “Repulsion for Humanity” é um amálgama de agressividade crua com definição, ou seja, é uma brutalidade artesanal, mas costurada de forma que conseguimos entender tudo que é tocado, ou seja, algo de alto nível. Ou seja, é uma mistura bem feita de timbres sujos e orgânicos (que dão esse impacto agressivo que o disco tem) com um trabalho de mixagem e masterização bem cuidados. Por isso soa agressivo de doer os ossos, mas sem estar embolado.

Na arte gráfica, tudo ficou ótimo: da capa que tem uma aura “Velha Guarda” (impossível não estabelecer paralelos entre ela e alguns trabalhos de Death Metal dos anos 90) a um encarte muito bem feito, com uma diagramação inteligente e uma boa escolha da paleta de cores usadas. Sim, tudo em termos estéticos visuais é de primeira, mas e a música?

Mesmo (ainda) não estando entre os grandes nomes do Metal extremo, o trabalho do SINSÆNUM não perde em nada quando comparado aos seus pares. E tal afirmação é pavimentada por momentos como “Repulsion for Humanity” (brutal, veloz na maior parte do tempo, com refrão marcante e é recheada com riffs extremos de qualidade), “Final Resolve” (cadenciada, com uma pegada envolvente e momentos excelentes de baixo e bateria), “Sworn to Hell” (outra em que os tempos são cadenciados na maior parte do tempo, e onde se percebe que os solos de guitarra possuem um forte acento melódico), “Rise of the Light Bearer” (outra em que a técnica de baixo e bateria é abusivamente técnica, mas sustentando o desempenho fenomenal dos vocais), “Sacred Martyr” (o ritmo é deliciosamente envolvente, daqueles que a cabeça se move sozinha, sem que se perceba, e, além disso, os contrastes entre vocais guturais e timbres rasgados ficaram excelentes), “My Swan Song” (outra vez a banda usa de ritmos mais arrastados, ressaltando bastante as guitarras), “Nuit Noire” (essa com algo de Black Metal mais evidenciado, mesmo com o alinhavo mais técnico), e “Forsaken” (longa e bem trabalhada, a quantidade de variações rítmicas é enorme, sem falar no uso inteligente de orquestrações sinistras e teclados providenciais, e o uso de partes mais introspectivas encaixou como uma luva na canção). São apenas algumas, mas o melhor é ouvir o disco de ponta a ponta.

Ou seja, é melhor que o SINSÆNUM deixe de ser visto como apenas um projeto, e seja encarado com extrema seriedade. “Repulsion for Humanity” os credencia para o time de cima, sem sombra de dúvidas!

Nota: 98%







METAL ALLEGIANCE - Volume II: Power Drunk Majesty


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. The Accuser
2. Bound by Silence
3. Mother of Sin
4. Terminal Illusion
5. King with a Paper Crown
6. Voodoo of the Godsend
7. Liars & Thieves
8. Impulse Control
9. Power Drunk Majesty (Part I)
10. Power Drunk Majesty (Part II)


Banda:


Alex Skolnick - Guitarras, backing vocals
David Ellefson - Baixo, guitarra base adicional em “Voodoo of the Godsend”, backing vocals
Mark Menghi - Baixo, backing vocals
Mike Portnoy - Bateria


Ficha Técnica:

Trevor Strnad (THE BLACK DAHLIA MURDER) - Vocais em “The Accuser”
John Bush (ARMORED SAINT) - Vocais em “Bound By Silence”
Bobby “Blitz” Ellsworth (OVERKILL) - Vocais em “Mother of Sin”
Mark Tornillo (ACCEPT) - Vocais em “Terminal Illusion”
Johan Hegg   (AMON AMARTH) - Vocais em “King with a Paper Crown”
Max Cavalera (SOULFLY, CAVALERA CONSPIRACY) - Vocais em “Voodoo of the Godsend”
Troy Sanders (MASTODON) - Vocais em “Liars & Thieves”
Mark Osegueda (DEATH ANGEL) - Vocais em “Impulse Control” e “Power Drunk Majesty (Part I)”, backing vocals em “King With a Paper Crown” e “Power Drunk Majesty (Part II)”
Floor Jansen (NIGHTWISH) - Vocais em “Power Drunk Majesty (Part II)”
Andreas Kisser (SEPULTURA) - Guitarra solo adicional em “The Accuser”, “Mother of Sin”
Nita Strauss (ALICE COOPER, THE IRON MAIDENS) - Guitarra solo adicional em “King With a Paper Crown”
Joe Satriani - Guitarra solo adicional em “Power Drunk Majesty (Part II)”
Mark Menghi - Produção
Alex Skolnick - Produção
Mark Lewis - Mixagem, masterização
Marcelo Vasco - Artwork


Contatos:

Assessoria:

Texto: “Metal Mark” Garcia


Apostar em projetos musicais em períodos longos (ou seja, mais de um disco) virou algo comum nos dias atuais, já que as modernas tecnologias de gravação e taxas de conexão de internet cada vez maiores ampliaram opções. Não há mais aquela coisa de ficar em apenas um trabalho se a coisa vinga. E é o caso do METAL ALLEGIANCE, que chega ao seu segundo “full length”, o ótimo “Volume II: Power Drunk Majesty”, que temos à mão graças à parceria da Shinigami Records com a Nuclear Blast Brasil.

A verdade é: o grupo foi idealizado pelo baixista/compositor Mark Menghi, e que reúne como membros permanentes (além do próprio Mark) Alex Skolnick, David Ellefson, e Mike Portnoy. O estilo musical do grupo fica entre o Metal tradicional moderno e o Thrash Metal (muitas vezes, com toques de groove aqui e ali), o que nas mãos de músicos como os supracitados ganham magia e identidade próprias, e podemos dizer que aferem uma qualidade enorme. Mas um dos fatores mais legais é justamente que não existe um vocalista fixo no grupo, tendo vocalistas diferentes em cada uma das canções. Óbvio que temos gente da Velha Guarda, alguns da Nova Guarda, e assim, a diversão ao ouvir “Volume II: Power Drunk Majesty” está mais que garantida.

Óbvio que a qualidade sonora de um disco assim tem que ser algo que beira a perfeição, logo, Mark eAlex chamaram a responsabilidade de produzir o disco para eles mesmos, tendo Mark Lewis trabalhando na mixagem e masterização. O resultado é uma sonoridade bem feita, agressiva e moderna, mas mantendo a clareza em um nível bem alto, sem mencionar que os timbres instrumentais foram escolhidos cuidadosamente. Na arte, o trabalho artístico de Marcelo Vasco (da PR2 Design) é sempre algo belo e de primeira (embora o encarte seja mais simples).

O METAL ALLEGIANCEnão faz algo que seja novo, apenas tem uma diferenciada pela mistura de influências. Mas o conjunto de melodias da banda é de primeira, sem mencionar que, apesar da técnica de cada integrante ser reconhecida (exceto a de Markpor motivos óbvios), a preferência é por algo mais direto, funcional e que grude nos ouvidos. E isso não dá para negar: eles são mestres, com ótimos arranjos e refrães estratégicos, embora nada soe enlatado devido a excessivos polimentos.

10 canções de puro prazer em forma de Metal é o que nos é oferecido, todas elas excelentes.

E é impossível não se render em momentos como “The Accuser” e sua energia Thrash/Heavy Metal (a bateria está fantástica em termos de peso e técnica), a pegada ganchuda de “Bound by Silence” (um típico ritmo de Thrash Metal norte americano, com guitarras de primeira nos riffs e solos), a oscilação entre velocidade e cadência de “Mother of Sin”, o impacto pesado e melodioso de “Terminal Illusion”, a força técnica e com ótimos arranjos de “King with a Paper Crown” (que refrão!!!), a modernidade Thrash/Groove de “Voodoo of the Godsend”, a simplicidade funcional e opressiva de “Liars & Thieves”, o jeito mais anos 80 no “approach” energético e técnico de “Impulse Control” (reparem bem nos backing vocals), a pegada em ritmo nem veloz e nem lento de “Power Drunk Majesty (Part I)”, e o capricho harmonioso e cheio de contrastes de “Power Drunk Majesty (Part II)”. Ah, sobre os vocais: não são mencionados porque só tem feras no projeto, só cantores que, se não são de conhecimento no mainstream, já são lendários para os fãs de Metal.

Óbvio que uma canção com a participação de todos os vocalistas envolvidos no disco, como foi o cover de “We Rock” (do DIO) do primeiro álbum fez um pouco de falta, mas não se pode de forma alguma dizer que “Power Drunk Majesty (Part I)” não seja um discão.

Hora de cair dentro!

Nota: 93%






Spotify


sexta-feira, 23 de novembro de 2018

HEAVY SMASHER - Smashed and Loud


Ano: 1982
Tipo: Extended Play (EP)
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. Heavy Smasher Sound
2. Clash of the Gods
3. Sunrise Rebel
4. Screaming All
5. Heavy Smasher Sound (Demo Version)


Banda:


Jarleson Oliveira - Vocais
Nando Smasher - Guitarras
Diego Quântico - Guitarras
Bruno Abreu - Baixo
Bruno Rocha - Bateria


Ficha Técnica:

Halisson Faustino - Vocais em “Heavy Smasher Sound (Demo Version)”
Luís Paulo - Baixo
Criss Izzys - Bateria


Contatos:

Site Oficial:
Assessoria:

Texto: “Metal Mark” Garcia


Tocar e criar canções em estilos mais tradicionais do Metal não é tarefa simples, pois se esbarra sempre no “eu já ouvi isso antes”. Óbvio que não se pode exigir que todas as bandas criem um novo estilo de Metal, um novo gênero. Mas nem por isso as bandas podem desistir de terem sua própria forma de fazer sua música, e é isso que o HEAVY SMASHER (do Ceará) faz em seu EP “Smashed and Loud”.

A banda não cria um estilo novo, mas soube fazer de sua abordagem do Heavy Metal tradicional com aspectos modernos algo pessoal. Óbvio que não se pode deixar de perceber influências de JUDAS PRIEST, BLACK SABBATH e mesmo ICED EARTH em seu trabalho, mas isso não os desabona. Desta forma a música da banda é pesada e melodiosa, com cuidado na questão de arranjos (em especial os refrães, o que evidencia alguns toques de Hard Rock aqui e ali), mas mantendo uma ótima e salutar dose de agressividade.

Sim, o EP é muito bom, logo, hora de algum esmagamento de ouvidos e pescoços!

A sonoridade do EP ficou de bom nível, com tudo pesado e compreensível aos ouvidos, mostrando que existiu uma preocupação em se fazerem entender. Mas tudo de forma que não se perde o clima despojado e “plug ‘n’ play” que a banda carrega. A timbragem buscou ser a mais simples possível, evitando algo excessivamente carregado e distante dos timbres mais modernos dos nossos dias. Está bom, mas ainda um pouco longe do que a música do quinteto merece.

É perceptível que o HEAVY SMASHER ainda tem um longo caminho a sua frente, pois ainda há certa ingenuidade da banda em termos de composição, mas nada que o tempo e ensaios não resolvam. Mas é impossível não ficar impressionado com sua capacidade de lapidar suas melodias, de criar partes que nos empolgam sem fazer esforços, com refrães marcantes (como o de “Heavy Smasher Sound”) e um bom trabalho técnico. É uma boa promessa, e que amadurecendo, vai dar trabalho aos grupos do time principal do Metal tradicional brasileiro.

Por hora, as melodias empolgantes de “Heavy Smasher Sound” (refrão de primeira, além de ótimas guitarras, e com um toque de Hard Rock dos anos 80), a energia crua e irresistível de “Clash of the Gods” (os riffs são ótimos, sem falar que as partes dos vocais são muito, muito boas) e de “Sunrise Rebel” (um jeitão à lá JUDAS PRIEST da era de “Screaming for Vengeance” fica evidente, e que peso de baixo e bateria), e “Screaming All” mais uma vez mostra a influência do Hard Rock em sua música, mas sem negar seu alinhavo moderno (reparem bem como baixo e bateria criam um trabalho pesado, permitindo que as guitarras mostrem riffs diretos e ganchudos). Ainda temos a versão Demo para “Heavy Smasher Sound”, que nos permite observar como a banda evoluiu entre as gravações duas versões.

Finalizando: o HEAVY SMASHER é um nome promissor do cenário, que tende a crescer e ficar ainda melhor. Mas “Smashed and Loud”merece aplausos e ser ouvido no último volume!

Ah, sim: o EP pode ser ouvido nas plataformas digitais abaixo.


Nota: 80%

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

IRON MAIDEN - The Number of the Beast


Ano: 1982
Tipo: Full Length
Selo: EMI Odeon
Nacional


Tracklist:

1. Invaders
2. Children of the Damned
3. The Prisoner
4. 22 Acacia Avenue
5. The Number of the Beast
6. Run to the Hills
7. Gangland
8. Hallowed Be Thy Name


Banda:


Bruce Dickinson - Vocais
Adrian Smith - Guitarras, backing vocals
Dave Murray - Guitarras
Steve Harris - Baixo
Clive Burr - Bateria


Ficha Técnica:

Martin “Farmer” Birch - Produção, engenharia, mixagem
Derek Riggs - Artwork


Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: “Metal Mark” Garcia


Existem tradições no Metal que são difíceis de precisar quando as mesmas surgiram. Uma delas é a mística que envolve o terceiro disco do uma banda qualquer: ele tem que ser o divisor de águas na carreira do grupo, e se ele não for um algo de alto nível e que chegue ao sucesso, a banda ficará eternamente nos níveis inferiores, nunca será do “time principal”. O terceiro disco é considerado “a nega”, ou seja, não há como escapar. Talvez o pai dessa mística seja “The Number of the Beast”, terceiro disco do IRON MAIDEN, a banda de maior sucesso comercial do Metal em todos os tempos. É o disco legendário deles, aquele cujo nome vem à mente de qualquer fã quando a banda é citada.


Mas o que há por trás dele, afinal de contas?

Antes de tudo, voltemos no tempo: ainda em 1981, devido ao abuso no consumo de drogas, o vocalista Paul Di’Anno havia deixado a banda. Em setembro do mesmo ano, o ex-vocalista do SAMSON, Bruce Dickinson (na época, chamado Bruce Bruce) faz sua audição e entra para o quinteto, mas obrigações legais com seu ex-grupo não o permitiram participar do processo de composição (onde Adrian Smith e Clive Burr aparecem). Além do mais, o estilo de compor de Steve Harris evolui e começa a transitar para o que seria conhecido nos discos posteriores, ganhando maior ênfase técnica, se afastando da energia crua do Punk Rock que a NWOBHM carregava, mas mantendo a energia e peso de antes. Ao mesmo tempo, o quinteto não tinha muito material antigo de sobra a ser aproveitado, logo, o disco é todo fresco, novo.

O que há nele de diferente?

Ao mesmo tempo em que a voz de Bruce trouxe maior diversificação ao trabalho da banda, o entrosamento dos outros membros (vindo de shows e turnês incessantes) também fazia diferença. Mas algo em “The Number of the Beast” é diferente, tanto em relação aos discos anteriores como aos posteriores, algo que poderíamos dizer que seria um marco. Talvez a causa dessa característica seja justamente por ele ser um disco de transição: a banda está indo do passado com o toque de crueza (embora já houvessem dado sinais que fariam algo mais elaborado a partir de “Killers”) para um futuro mais trabalhado e dinâmico (o que se concretizará em “Piece of Mind” e “Powerslave”), ou seja, é um disco em que a banda está entre seu passado e seu futuro, pegando o melhor de ambos.

Gravado entre janeiro e fevereiro de 1982 no Battery Studios, em Londres, a produção, como ocorreu com “Killers”, é assinada pelo veterano Martin Birch, conhecido por conta de seus trabalhos com FLEETWOOD MAC, DEEP PURPLE, RAINBOW, BLACK SABBATH, WHITESNAKE, BLUE ÖYSTER CULT, WISHBONE ASH, entre outros. Basicamente, a sonoridade é a mesma de “Killers”, tendo a crueza dos sistemas analógicos, instrumentos musicais e efeitos mais antigos (gravar uma bateria microfonada não é uma tarefa das mais simples), mas mantendo a limpeza e bom gosto de sempre. Óbvio que para os padrões modernos pode soar abafado e cru, mas era algo “top” para aqueles tempos.


Na arte, o trabalho de Derek Riggs é belo e chamativo (embora a montagem com a banda na contracapa seja algo tosco). Óbvio que o choque causado pelo desenho causou polêmicas em excesso, já que o grupo foi perseguido por grupos de fanáticos, sob a acusação de satanismo. Uma pena que poucos viram as entrevistas, por anos a fio, explicando que a letra da faixa-título vem de um pesadelo que Steve Harris (compositor da canção) teve depois de ver “Damien: Omen II” (conhecido por aqui como “A Profecia II”), embora ela também sofra a influência do poema “Tam o’ Shanter”, de Robert Burns.

Musicalmente falando, “The Number of the Beast” é um disco que pertence a dois mundos ao mesmo tempo: o passado do IRON MAIDEN e o futuro que estava à mão. A energia e frescor dele não se dissiparam em nada em 32 anos desde seu lançamento. Óbvio, pois as melodias bem compostas, refrães marcantes, a sabedoria de como conduzir os ritmos, tudo nesse disco tem um brilho enorme. Além disso, a banda estava com sangue nos olhos: Bruce em uma forma esplendorosa, Dave e Adrian entrosados e fazendo riffs e solos memoráveis, o baixo de Steve mais parecendo um tanque de guerra com peso e brilho (e não é à toa um dos 5 melhores baixista do Metal de todos os tempos), além do já finado Clive dar um show de peso e “groove” na bateria. Não tinha como dar errado.

E não deu!


“The Number of the Beast” é um dos grandes clássicos do Metal de todos os tempos, e o disco definitivo do IRON MAIDEN. E as canções mostram o porquê desta afirmação tão categórica.

O lado A abre com a torrente de energia de “Invaders”, uma faixa que tem clara influência do Hard ‘n’ Heavy da NWOBHM, que se encaixaria perfeitamente em “Iron Maiden” em termos de consensualidade (e que trabalho das guitarras e baixo). Em seguida, um dos grandes clássicos do grupo, “Children of the Damned”, que é tocada regularmente nos shows até hoje, uma semi-balada pesada climática onde os vocais já mostram sua potencialidade, e faz uma ligação interessante entre “Remember Tomorrow”e “Revelations”. Já com algo que apontava para o futuro vem “The Prisioner”, cuja letra é baseada em um seriado inglês de mesmo nome, e que tem um refrão grudento e as guitarras dão uma aula em termos de riffs e solos. Se querem entender como o quinteto é uma influência seminal do Metal norte-americano, basta uma ouvida em “22 Acacia Avenue” (que faz parte da estória contada em “Charlotte the Harlot”, e cuja música pertencia a finada banda anterior de Adrian, URCHIN). O lado A, mesmo com seus méritos e pessoalidades, ainda é consensual com “Iron Maiden” e “Killers” em termos estilísticos.

No lado B, o caldo engrossa!

A narrativa do ator inglês Barry Clayton para as citações 12, 12 e 13, 18 do Livro do Apocalipse (que para quem não sabe, o termo vem do grego “apokalypsis” e significa “revelação”) introduzem a clássica “The Number of the Beast”, que começa sinistra e logo surge um grito agudo e a canção explode em peso, mostrando um trabalho ótimo de baixo e bateria; ela foi o segundo Single do álbum (lançado em 26 de Abril 1982) e quem nunca gritou “six, six, six, the Number of the Beast” na vida não sabe o que é Heavy Metal. Em seguida, talvez a mais icônica canção do álbum, e justamente o primeiro Single (lançado em 12 de Fevereiro 1982, apenas 10 dias antes do disco): “Run to the Hills”, com guitarras em tom quase zombeteiro no início, antes de virar uma avalanche de energia intensa, outro refrão que não se esquece nunca, e o baixo trovejando (e cuja letra trata dos conflitos entre os povos indígenas da América e dos colonizadores europeus sob a perspectiva de cada um dos lados), e também concede pistas do que a banda seria nos anos vindouros. Óbvio que uma enorme parte dos fãs concorda (inclusive o próprio Steve Harris assume isso) que a boa “Gangland” é uma canção que não é tão boa como as anteriores, logo, puxou o nível do disco para baixo (é uma boa canção, mas só isso, embora a bateria esteja bem nela). Fechando o disco, a clássica “Hallowed Be Thy Name”, que começa lentinha e climática, para depois ganhar mais energia e peso, uma faixa épica e que terá “crias” no futuro, uma aula de interpretação dos vocais e um ritmo empolgante, encerrando este clássico com chave de ouro.


Ah, sim: é preciso lembrar que “Total Eclipse” é uma sobra de estúdio que foi um “lado B” da banda, justamente para o Single de “Run to the Hills”. E é justamente sobre ele que Stevemanifestou o descontentamento com a escolha da banda de “Gangland” estar no álbum, já que ela talvez se encaixasse melhor no contexto musical do álbum, conforme consta na biografia “Iron Maiden: Run to the Hills”, de 2004 (escrita por Mick Wall). Uma sorte que ela é incluída nas edições em CD de “The Number of the Beast” desde a série remasterizada de 1998.

Algumas curiosidades:

1. Bruce alega que a banda pediu ao ator Vincent Price para fazer introdução de “The Number of the Beast”, mas deixaram para lá por não poderem na época arcar com valor pedido £25.000.

2. Quando estavam em turnê pela Alemanha em 1982, congelando em uma van, eles receberam uma ligação de Rod Smallwood lhes dizendo para continuar, pois o disco estava vendendo bem.

3. Os protestos de fanáticos religiosos contra a banda por causa da letra de “The Number of the Beast” é uma mostra do chamado efeito Streisand, ou seja, quanto mais se tenta abafar, calar, censurar ou outro ato similar, mais divulga aquilo.

4. Curiosamente, ele parece ser o disco que mais “desencaminhou” filhos de boas famílias, já que o número de versões para as músicas desse disco é algo absurdo. Não dá para contabilizar.

5. Assim como seus antecessores, “The Number of the Beast” mostra mudanças de formação: Bruce no lugar de Paul nos vocais. E ele seria o último disco de Clive na banda, que seria substituído pelo ex-baterista do grupo francês TRUST (aquele mesmo, que compôs a música “Antisocial”, popularizada pelo ANTHRAX), Nicko McBrain. Interessante saber que o posto de Nicko seria preenchido por ninguém menos que Clive! E sabe-se que o IRON MAIDEN havia tido o TRUST como “opening act” da parte francesa da “Beast on the Road Tour”.

No mais, “The Number of the Beast” justifica a tradição de “o terceiro é à vera”, ou seja, ou vira celebridade ou vira “Cult”. E ele é um disco tão importante para a história do Metal que não só ajudou a promover o gênero, mas abriu as portas de muitos países para a banda, inclusive o Brasil






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