segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ORPHANED LAND - Unsung Prophets & Dead Meassiahs


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Importado


Tracklist:

1. The Cave
2. We Do Not Resist
3. In Propaganda
4. All Knowing Eye
5. Yedidi
6. Chains Fall to Gravity
7. Like Orpheus
8. Poets of Prophetic Messianism
9. Left Behind
10. My Brother’s Keeper
11. Take My Hand
12. Only the Dead Have Seen the End of the War
13. The Manifest - Epilogue


Banda:


Kobi Farhi - Vocais
Chen Balbus - Guitarras, saz
Idan Amsalem - Guitarras, bouzouki
Uri Zelcha - Baixo
Matan Shmuely - Bateria, percussão


Ficha Técnica:

Jens Bogren - Mixagem, masterização
Metastazis - Artwork
Shlomit Levi - Vocais femininos
Steve Hackett - Guitarras em “Chains Fall to Gravity”
Hansi Kürsch - Vocais em “Like Orpheus”
Tomas Lindberg - Masterização, vocais em “Only the Dead Have Seen the End of War”


Contatos:

Bandcamp:

E-mail:

Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Platão

Antes de qualquer coisa, é necessário que o leitor tenha paciência. Esta não é uma resenha comum, e é preciso uma longa introdução.

Em termos de ciência e história, não se pode negar o quanto o filósofo grego Platão (428/427 A.C. - 348/347 A.C.) é importante para a formação e canonização de todo o conhecimento que temos nos dias de hoje. E um de seus maiores legados ao homem é a Alegoria da Caverna, e pode ser encontrada em “A República”. Nessa antiga experiência mental, Platão demonstra que uma pessoa criada nas trevas da ignorância e induzida constantemente ao medo (dentro da caverna), se um dia confronta aquilo que o atemoriza (uma nova realidade e a chegada do conhecimento), sai ignorância e chega ao conhecimento (fora da caverna), mas sofre conflitos e dúvidas durante o processo (os olhos doem pela luz). E se este tenta voltar e ajudar os companheiros de cativeiro na ignorância (aqueles que nasceram e foram criados nas trevas da caverna juntamente com o que fora libertado), estes tenderão a não reconhecer o triste estado em que se encontram e culparão o conhecimento (luz) por aqueles efeitos nocivos que veem no liberto (agora ele mal pode enxergar nas trevas), e assim, lutarão para permanecer na ignorância e matarão aqueles que tentam livrá-los das ilusões em que vivem.

Sócrates
Muitos atribuem a Alegoria da Caverna à experiência de Platãoter testemunhado o próprio mestre, Sócrates (outro que muito contribuiu para tudo que temos em termos de ciências nos dias de hoje), o grande filósofo grego que trouxe o conhecimento a tantos, que livrou tantos da escuridão da caverna, teve contra si os ignorantes.

Sócrates foi acusado 3 crimes:

1. Não acreditar nos costumes e nos deuses gregos (acusação que visa manter status quo religioso e o conservadorismo tradicionalista);

2. Unir-se a deuses malignos que gostam de destruir as cidades (mais uma permeada por conteúdo religioso e poder político temporal);

3. Corromper jovens com suas ideias (nesta, é clara a manutenção do status quo da ignorância, pois  é nos jovens esclarecidos que residem a esperança de um mundo melhor no futuro).

Os acusadores: Ânito (que faz parte da classe dos políticos, por ser rico e representar os interesses dos comerciantes e industriais, além de ser poderoso e influente em Atenas), Meleto (poeta trágico desconhecido, foi o acusador oficial, embora nada exigisse que ele, como acusador oficial, fosse o mais respeitável, hábil ou temível, mas somente aquele que assinava a acusação, representava a classe dos poetas e adivinhos) e Lícon (retórico obscuro e o seu nome teve pouca importância e autoridade no decorrer da condenação de Sócrates, e representava a classe dos oradores e professores de retórica). Por trás de cada um, interesses pessoais escusos na condenação de Sócrates. Dado o veredicto de culpado (exílio ou morte), o sábio mestre, por sua vez, preferiu a morte a ser exilado com a língua cortada (o que seria feito para que ele não mais seduzir as pessoas com suas ideais), bebendo cicuta diante de seus discípulos e amigos.

Dr. Martin Luther King
Alguns poucos queriam sua morte por interesses pessoais, o povo alienado segue estes pedidos como se fossem ordens e clamam por sangue, e o sábio mestre, portador da luz do conhecimento, morre. Uma Luz se apaga..

Se pararem para pensar, já não vimos esse mesmo tipo de coisa ocorrendo na história da humanidade desde que os primeiros relatos passaram a ser escritos?
  
Um exemplo: para aqueles que leram alguma vez na vida os livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, contidos na Bíblia, quantas e quantas não foram os momentos o povo de Israel, em sua jornada do Egito (de onde haviam sido libertos) até a Terra Prometida, não reclamou se levantou contra seu líder, Moisés, querendo voltar à servidão de onde haviam saído?Ou seja, quantas vezes quiseram retornar para as trevas da ignorância servil? A liberdade plena e o conhecimento demandam esforços, exigem que saiamos das nossas zonas de conforto todos os dias.

Nesse sentido, se pode compreender os motivos que levaram homens como Mahatma Ghandi, Dr. Martin Luther King, o Jesus histórico, Muhammad Anwar el-Sadat, John F. Kennedy, Yitzhak Rabin, e mesmo Antônio Conselheiro e tantos outros, à morte: somos incapazes de sair das trevas da ignorância e abraçar o conhecimento, e dessa forma, criarmos um mundo melhor e pacífico. Podemos dizer que eles são Profetas não ovacionados pelo povo e Messias mortos pela nossa omissão.

Ainda mais profundamente, reparem em quanto ódio é visto nas notícias internacionais, nacionais e mesmo nas redes sociais, na resistência belicosa contra o conhecimento.Preferimos nos alienar na escuridão da ignorância na caverna à encarar a Luz do conhecimento que ilumina e aquece o mundo real.

Mahatma Gandhi
Outros excelentes exemplos em termos de Brasil são os pedidos  de muitos por uma novas intervenção militar após o fracasso dos últimos governos democratas, a ausência de batucadas em panelas contra os desmandos do atual governo federal, e mesmo o ódio contra a comunidade LGBTQ+, contra os afrodescendentes, mulheres feministas e outros... Culpamos uns aos outros de crimes e nos odiamos mutuamente, muitas vezes sem motivos e sem que compreendamos as raízes desse mal. Odiamos quem tenta nos conscientizar que existem possibilidades melhores.

E detalhe: NÓS NÃO RESISTIMOS AO ÓDIO, não fazemos oposição real à ignorância, apenas nos omitimos ou assimilamos os sentimentos, travestindo-o como algo nobre... E não nos opondo, nos tornamos cúmplices de tanto sangue derramado... Preferimos e falar (bem ou mal) de celebridades insossas do mundo moderno pelas redes sociais a entender quem foram Sócrates ou Platão e o que eles nos legaram; sabemos mais de reality shows e seus participantes do que sobre ciências e tristes fatos que ocorrem nesse momento pelo mundo e demandam nossa atenção!

Ainda estamos presos à caverna e às trevas!

A Alegoria da Caverna, no fundo, tem por ideia demonstrar “o efeito da educação e a falta da mesma em nossa natureza”, o quanto ela é uma ferramenta preciosa. Mas observando pelo lado discorrido até agora, percebe-se que Platão não só se mostrou um filósofo excepcional, mas sua figura ganha contornos de um profeta, e pararmos para refletir que a Alegoria da Caverna foi escrita há mais de 2500 anos, mas mostra a atualidade do mundo, é uma profecia para nos prevenir do mal!

E esta longa introdução é para que o leitor compreenda um pouco do que é o conceito que permeia “Unsung Prophets & Dead Messiahs”, sexto e mais recente disco do quinteto Israelita ORPHANED LAND.

Muhammad
Anwar el-Sadat
Para os fãs de longa data, fica a pergunta: como a banda está soando agora, após a saída do guitarrista Yossi Sassi, um dos membros fundadores, em 2014?

Sendo o mais direto possível: muito pouca coisa mudou musicalmente.

A banda continua fazendo o estilo que eles criaram nos anos 90, o Oriental Metal, que nada mais é que a fusão do Metal com influências de Death Metal, Doom Metal e mesmo outros gêneros do Metal com melodias e a estética de vários ritmos regionais do Oriente Médio. O que é notável é que a banda retomou algumas influências de “Mabool” e “The Never Ending Way of ORwarriOR”, como o uso de vocais mais agressivos e algumas melodias mais secas, mas mantendo as orquestrações grandiosas, vocais femininos, corais operísticos e estética elegante de “All is One”. Mas ao mesmo tempo, existem arranjos musicais mais dinâmicos e alguns momentos melancólicos e/ou soturnos, justamente para criar uma ambientação densa e perfeita para o trabalho lírico do disco.

Construir uma sonoridade para “Unsung Prophets & Dead Messiahs” não foi um trabalho simples, como se repara em repetidas audições. Existem múltiplas camadas que necessitaram ser encaixadas perfeitamente, e muitos instrumentos diferentes a serem colocados lado a lado, sem se sobreporem. A produção é do próprio quinteto, tendo o gênio Jens Bogren na mixagem e Tomas Lindgren na masterização. Seja nos momentos mais pesados e intensos, nos mais agressivos ou nos mais introspectivos e suaves, tudo ficou perfeito, equilibrando limpeza e agressividade, peso e melodias. Tudo foi levado em consideração, meditado e então feito.

Itzhak Rabin
Outro ponto a ser ressaltado é a arte gráfica. Usando tons mais claros que o costumeiro no gênero, a ambientação visual cria uma atmosfera perfeita para as canções, sendo que a capa deixa claro todo o contexto lírico do quinteto. Fica clara a referência que a caverna é mantida por poderes temporais, envolvendo todo o mundo. Mas que a sabedoria e o conhecimento são o punho da resistência, da libertação.

Musicalmente mais denso e introspectivo que “All is One” (que tinha uma ambientação mais acessível), “Unsung Prophets & Dead Messiahs” é complexo, mas não é tão difícil de ser assimilado em poucas audições. O ORPHANED LAND continua sendo ousado e criativo dentro do estilo que criou para si, sabendo fazer belos contrastes musicais. Curiosamente, existem vários “point blanks” no disco (aqueles os famosos bips da censura que surgem em músicas e programas de TV quando alguém fala um palavrão), em várias canções, que são propositais e ali estão em uma forma de autocensura da banda, para criar uma ideia de quem nem tudo pode ser dito, pois poderia destruir a caverna de muitos. Além disso, a mensagem da banda se tornou universal, pois ela fala a todos nós com clareza enorme.

Falar sobre cada canção de “Unsung Prophets & Dead Messiahs” se faz necessário. A obra como um todo merece isso, pois cada uma delas é uma joia preciosa.

O disco abre com a longa e trabalhada “The Cave”, onde existem contrastes de momentos mais amenos e melancólicos com outros mais agressivos (mostrando um ótimo trabalho dos vocais, guitarras muito boas e corais bem encaixados), e se percebem várias citações, entre eles, uma de Platão, que é “Podemos facilmente perdoar uma criança que está com medo da escuridão; a real tragédia da vida é quando os homens estão com medo da luz”, já que a letra lida com a Alegoria da Caverna em si.

Segue-se com os vocais extremados e clima harmonioso de “We Do Not Resist” (os timbres vocais variam bastante, de um gutural inteligível para limpas vozes envolventes), e fica evidente o teor lírico (onde é claro que preferimos dar atenção a fofocas e celebridades descartáveis todos os dias que saber da verdade triste de muitos, como as 70000 crianças que são sequestradas todos os anos na Índia).

Profeta Jeremias
A beleza orquestral que envolve as melodias orientais de “In Propaganda” (que belos arranjos de guitarras) toma nossos ouvidos e nos embala, enquanto mostra uma das correntes modernas que nos prende à caverna e suas ilusões: a propaganda midiática, que nos afasta da luz e nos acorrenta.

Em “All Knowing Eye”, tem-se uma música mais amena e melancólica com muitas partes acústicas (embora surja um crescendo de metade dela até o final, todo com instrumentos elétricos), além de belíssimos vocais femininos contrastando com a voz limpa de Kobi (e que belos solos de guitarra). A música é uma lamentação (bem semelhante ao linguajar triste e melancólico usado pelo profeta Yirmeyahu, ou Jeremias, em seus oráculos) pelos profetas e messias que foram mortos por tentaram nos ajudar. 

Totalmente feita em ritmos regionais é “Yedidi”, que apesar de ser mais simples, mostra um trabalho refinado de baixo e bateria, sendo que esta é uma adaptação de uma composição por Judah Halevi (1075 -1141), poeta espanhol de origem hebraica (celebrado como um dos grandes poetas hebreus tanto por seus poemas religiosos e/ou seculares) e que foi morto pouco depois de chegar à Terra Santa, ao antigo Reino Latino de Jerusalém (culturalmente, se diz que ele foi atropelado por um cavaleiro árabe enquanto pronunciava uma sionida às portas da cidade).

A bela e melodiosa “Chains Fall to Gravity” vem em seguida com certo toque de melancolia e mesmo alguns toques de Rock Progressivo e orquestrações sinfônicas para adornar as melodias orientais, e de quebra, a participação de Steve Hackett, guitarrista do GENESIS, nos solos (retribuindo a participação de Kobi em seu último disco solo, “The Night Siren”). Nela, se percebe o processo de quem sai da caverna e é iluminado, e em como essa pessoa se torna um novo Profeta/Messias para a humanidade, e certos trechos parecem identificados com a linguagem profética de Yešayahu (o profeta Isaías).

Profeta Isaías
Primeiro Single de promoção, “Like Orpheus” é uma das canções mais acessíveis e belas do álbum, com linhas melódicas mais simples de serem entendidas, além de um trabalho de primeira de Chen e Idan nos riffs (além da presença especial de Hansi Kürsch, do BLIND GUARDIAN, dando um toque de beleza extra e classe à canção com sua voz). Orpheus (ou Orfeu) é um personagem mitológico cuja música era capaz de encantar monstros e aliviar os tormentos dos que habitavam no mundo dos mortos, onde ele foi para tentar recuperar sua amada esposa, Eurídice. Deixo ao leitor a tarefa de ler sobre este mito.

A bela e curta “Poets of Prophetic Messianism” se segue com muitas harmonias orientais, belos vocais femininos, e cuja letra é uma adaptação de trechos de “A República”, com a icônica citação “Anyone who holds a true opinion without understanding is like a blind man on the right road”, e em uma tradução livre, seria algo como “não seria quem mantém uma opinião verdadeira sem o conhecimento como um cego na estrada correta? A tarefa do Profeta Messiânico é desfazer a cegueira da ignorância, logo, quantos Profetas/Messias já não foram mortos por isso?

Misturando peso, sólidas melodias, corais e partes orquestradas, vem “Left Behind”, uma canção onda Uria e Matan estão criando uma base rítmica bem sólida e com boa técnica. A letra versa sobre os que permanecem na caverna, mas que desejam se libertar de sua condição de ignorância, da condição de medo e tormentos. O deslumbre do testemunho do Profeta/Messias os faz ansiar por uma nova vida.

Janusz Korczak
Tons orientais progressivos se fundem a passagens harmônicas densas e com declamação quase sussurrada das letras em “My Brother’s Keeper”. A letra fala do sentimento do profeta que o leva a voltar e tentar ajudar os outros. E “Não existo para ser amado ou admirado, mas para amar e agir. Não é tarefa dos que estão à minha volta me amar. Pelo contrário, é minha tarefa ser preocupado com o mundo, como o homem”, citação de Janusz Korczak (22/07/ 1878 ou 1879 - 05 ou 06/08/1942), famoso médico e pedagogo Polonês de origem hebraica, precursor das ideias de direitos das crianças e do reconhecimento da igualdade plena das crianças que conhecemos nas Escolas Democráticas dos dias de hoje. Foi assassinado juntamente com seus educandos no campo de concentração de Treblinka. Poderia ter se salvado fugindo, condição que lhe fora dada no mínimo duas vezes, mas não quis abandonar as crianças e funcionários de seu orfanato.

Mostrando melodias orientais mixadas a partes orquestrais e com belas guitarras, vem a longa e sinuosa “Take My Hand”, uma das canções mais empolgantes. Aqui, é narrada pregação do Profeta/Messias que visa arrancar as pessoas da escuridão, onde ele clama para que segurem sua mão e ele possa guia-los para um mundo de luz (conhecimento).

George Santayana
Com uma pegada que mixa melodias orientais, partes orquestrais e uma boa dose de brutalidade, vem “Only the Dead Have Seen the End of the War”, com boas mudanças de ritmo e vocais guturais bem agressivos (a participação especial de Tomas Lindberg (do AT THE GATES), mostrando toda a vocação mais extrema da canção. A frase que inspira o título, “apenas os mortos viram o fim da guerra”, é erroneamente atribuída a Platão, sendo do filósofo e poeta espanhol George Santayana (16/12/1863 - 26/09/1952), quer por não ser casado ou ter sido visto em relacionamentos heterossexuais, e por sua amizade com bissexuais e homossexuais assumidos, levantou suspeitas de muito sobre sua sexualidade (vejam que tal fato se dá no final da década de 40 do século passado, e era um enorme tabu). Aqui, a reação da turba contra o Profeta/Messias, acreditando que as tribulações causadas pela busca da liberdade foram causadas por eles, que anseiam pela ignorância. Eles o acusam e enfim, o assassinam, para que ele não mais possa mais “enganá-los”. Percebe-se que em certos pontos, a linguagem que foi usada nas letras remete ao mesmo tipo de linguagem que pode ser encontrado no livro de Salmos.

Víctor Jara
E fechando essa obra de arte em formato musical, “The Manifest - Epilogue”, uma canção densa e que possui citações do Torá (“você não é obrigado a completar o trabalho, mas também não está livre para desistir dele”) e “canções de bravura serão sempre canções novas, sempre”, que é de Víctor Jara (28/09/1932 - 16/09/1973), um professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, e músico que causou uma revolução cultural em seu país natal. Ele foi preso, torturado (suas mãos haviam sido esmagadas por coronhas de armas) e executado depois do golpe militar do Chile (sim, o golpe dado por Pinochet), sendo seu corpo jogado em uma rua de uma favela em Santiago,a Estrada Sul, na parte posterior de um cemitério, junto com outros três cadáveres. Possui 44 ferimentos de balas e vários ossos quebrados. Seu crime: a conscientização das camadas mais pobres da sociedade chilena, pois Víctor era um ativista político de esquerda. Aqui, se percebe que a luta dos Profetas e Messias não deve parar por nada, e que mesmo que demore milênios, as trevas cessarão um dia. Nossas esperanças de um mundo melhor não podem morrer conosco, mas devem seguir adiante, como herança para as futuras gerações.

Se os leitores não perceberam, cada uma das figuras históricas citadas na resenha são Profetas muitas vezes anônimos e Messias mortos pela sede de poder, riqueza e outros que desejam que os homens permaneçam na cegueira escura da caverna. Ou mesmo dos próprios ignorantes que desejavam permanecer em sua zona de conforto, pois toda mudança em direção ao conhecimento demanda esforços e sacrifícios.

Jesus histórico
Como a ida do Egito até a Terra Prometida, atravessando um deserto por longos anos...

Como a mudança de comportamento para com as crianças, entendendo que elas são seres humanos...

Como a oposição a um tirano sangrento, pois o medo escraviza...

Como a aceitar as pessoas como boas, independente de etnia, sexualidade ou outros, pois todos somos humanos...

Como se opor aos interesses da indústria armamentista, e fazer cessar os rios de sangue que inundam o mundo...

Como buscar a compreensão entre inimigos históricos, que muitas vezes nem sabem mais os motivos de sua luta...

Como promover a Luz do conhecimento que dissipa a escuridão da ignorância...

A mensagem de “Unsung Prophets & Dead Messiahs” é clara, e apesar do teor denso e melancólico, é um chamado para todos. A esperança ainda brilha... Os Profetas e Messias iluminados pelo conhecimento ainda nascem entre nós. Basta ouvi-los em seus sermões, e a ignorância e escravidão imposta por mídia, políticos, religiões e outros irão cessar. Abrace sua liberdade, pois ela é sua.

No mais, o ORPHANED LAND lança mais um disco que é forte candidato a se tornar um clássico do Metal no futuro, e já é um dos grandes discos do ano. Talvez seja um dos grandes discos dos últimos 20 ou 30 anos.

“Aquele que desejar mudar o mundo deve começar mudando o sistema de educação” (Janusz Korczak).

“O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os observa sem fazer nada” (Albert Einstein).

Nota: 100+%



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

E o RUSH enfim descansa merecidamente...


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


O dia 19/01/2018 marcou o fim de uma era no Rock: após 50 anos de muito trabalho, clássicos e muitas turnês, o RUSH encerrou suas atividades. Conforme entrevista dada por Alex, “não temos planos de fazer turnês ou gravar novamente. Basicamente, acabamos. Após 41 anos, sentimos que já era suficiente”.

Em 50 anos de carreira (sendo 44 deles com a mesma formação), Geddy Lee, Alex Lifersone Neil Peart quebraram todas as barreiras musicais possíveis, muitas vezes indo além do que qualquer um poderia prever. 20 discos ilustram esta carreira como clássicos do Rock, alguns deles sendo obras marcantes, como “2112”, “Moving Pictures”, “A Farewell to Kings” e outros tantos que, seja pela opinião da crítica ou dos fãs da banda, marcaram nossas vidas.


Além disso, justamente por nunca aceitarem um rótulo que definisse sua música, o trio é o pai do que chamamos de Metal Progressivo, a fusão do Rock Progressivo com o Metal que, anos depois, seria levado adiante por nomes como QUEENSRYCHE, FATES WARNING e DREAM THEATER.

Não há a quem culpar, não há porque nos lamentarmos. Tudo nasce e tudo morre, e o trio viveu o suficiente para ser introduzido no Rock and Roll Hall of Fame em 2013. O grupo deixou não seus fãs órfãos, mas uma herança musical enorme, discos, DVDs e outros para, no futuro, mostrar que existiu um Monstro Sagrado do Rock que nasceu no Canadá, mas que pertenceu ao mundo.


Que o RUSHdescanse merecidamente em paz, pois fez muito por todos nós.

Obrigado, Geddy, Alexe Neil por tantos anos de boa música e alegrias.


Thank you, Geddy, Alex and Neil for all these years of good music and happiness.

“The world is, the world is
Love and life are deep
Maybe as his skies are wide” (Tom Sawyer)

CINNAMUN BELOVED - Stain


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Selo: Don’t Pay Music
Importado


Tracklist:

1. Symbols of Beginning                  
2. So Far                    
3. Ride the Night                  
4. I Don’t Wanna Be            
5. Together                
6. Furious as the Wind                      
7. Storyline                
8. The Scent              
9. Without your Caress                     
10. Another Day                   
11. Symbols of Beginning II


Banda:


Sabrina Filipcic - Vocais
Leonardo Lukaszewicz - Guitarras
German Esquerda - Teclados
David Saavedra - Baixo em “The Scent” e “Without your Caress”
Matias Hernan Sala - Bateria


Ficha Técnica:

Cinnamun Beloved - Produção
Martín Di Lacio - Produção
Juan Collado - Mixagem, masterização
Sabrina Filipcic Holm - Artwork, design
Esteban Zenzerovich - Efeitos eletrônicos
Andrés Bernad - Baixo em “Storyline”        
Alejandro Guimaraes - Baixo


Contatos:

Instagram:
Assessoria: http://skywards-promotions.blogspot.com.br/ (Skywards Hard & Heavy Promotions)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Uma característica que podemos comprovar em relação aos fãs de Metal do Brasil é sua completa ignorância quando se fala em Metal da América Latina. Temos muito pouco contato com bandas de outros países vizinhos, o que chega a ser vergonhoso: conhecemos muito o Metal europeu, mas o sul-americano sempre acaba sendo deixado de lado. E quando falamos em nossos vizinhos da Argentina, o desconhecimento beira a nulidade. É uma pena, pois bandas como CLIMATIC TERRA, V8 e RATA BLANCA já mostraram tantas vezes como se faz música de gabarito na terra de nossos “Hermanos”. E um nome forte e interessante da cidade de Buenos Aires é o do CINNAMUN BELOVED, que já está em seu segundo disco, chamado “Stain”.

O estilo da banda é claro: aquela mistura de bons vocais femininos com ótimas melodias, excelentes orquestrações de teclados, riffs de guitarra de peso, e um trabalho de baixo e bateria com boa diversidade técnica. Se por um lado esse jeito de se fazer Metal não chega a ser algo novo, o quinteto mostra muita personalidade, um jeito de se fazer harmonias que seduzem os ouvintes, e muito, muito potencial.

Em termos que qualidade de som, “Stain” tem um bom nível. Embora muitas vezes se perceba uma crueza além do necessário para o trabalho que eles fazem, não ficou ruim. Óbvio que conseguimos compreender o que o quinteto está fazendo, tem peso e boa clareza, mas poderia ser um pouco mais limpo. Mas está bom como está.

Na arte, a banda lança mão de algo mais simples e direto, talvez para que a atenção do ouvinte fique focada apenas na música que eles fazem.

Embora o CINNAMUN BELOVED possa render bem mais do que mostra em “Stain”, fica comprovado que eles fizeram um trabalho e tanto. E lembrando que esta forma de fazer Metal saiu de evidência há alguns anos, é um disco muito bom, e uma proposta corajosa. E como a banda sabe arranjar bem suas canções, mostra uma técnica muito boa, mas que não soa excessiva.

“Stain” é um disco muito bom do início ao fim, onde se destacam o andamento ganchudo da melodiosa “So Far” (sem contar que a interpretação de Sabrina é ótima), o jeitão pesado e acessível de “Ride the Night” (baixo, bateria e teclados se mostram em ótima forma nesta canção), a melancolia introspectiva de “I Don’t Wanna Be” (outra canção onde os vocais são belíssimos, sem falar nos pianos bem encaixados), o jeito mais pesado e agressivo de “Storyline”e suas guitarras agressivas, a condução rítmica sedutora e as melodias mostradas em “The Scent”, e as belas e pesadas linhas melódicas de “Another Day”.

O CINNAMUN BELOVEDé um nome extremamente promissor das terras de nossos “Hermanos”, “Stain” é um disco muito bom, mas como dito acima: eles podem fazer muito melhor, logo, é uma questão de tempo para que conquistem mais e mais fãs.

Ah, sim: “Stain” pode ser baixado de graça no site da banda.

Nota: 83%

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

WATAIN - Trident Wolf Eclipse


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Selo: Century Media Records
Importado


Tracklist:

1. Nuclear Alchemy
2. Sacred Damnation
3. Teufelsreich
4. Furor Diabolicus
5. A Throne Below
6. Ultra (Pandemoniac)
7. Towards the Sanctuary
8. The Fire of Power
9. Antikrists Mirakel


Banda:


Erik Danielsson - Vocals, baixo
Pelle Forsberg - Guitarras
Håkan Jonsson - Bateria


Ficha Técnica:

T. Stjerna - Gravação, mixagem, masterização
Oik Wasfuk – Arte de capa e contracapa
Ketola - Artwork
E. - Artwork adicional, layout, caligrafia
Attila Csihar - Vocais adicionais em “Ultra (Pandemoniac)”
H. Death - Guitarra solo em “Ultra (Pandemoniac)”
A. Lillo - Músico convidado
Set Teitan - Músico convidado


Contatos:

Twitter:
Assessoria:

E-mail:

Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


As bandas de Metal possuem dois direcionamentos: ou elas se tornam enraizadas em torno do próprio estilo e evoluem pouco em termos musicais durante suas carreiras (o que não chega a ser algo ruim, bastando observar os exemplos do AC/DC e do MOTORHEAD para chegarem a esta conclusão), e aquelas em que a evolução é a força motriz do trabalho. Mas existem casos das bandas do segundo grupo que, por algum motivo, preferem retroceder. E esse é o caso do grupo sueco WATAIN. Toda a evolução que mostraram em “The Wild Hunt”está ausente em “Trident Wolf Eclipse”, o recém-lançado disco do trio.

Basicamente, o trio resolveu dar uma rebuscada em seu jeito cru e brutal de fazer Black Metal, lembrando um pouco o que fizeram em “Casus Luciferi” (2003) e “Sworn to the Dark” (2007). Está mais direto e ardente como antes, limando toda e qualquer evolução. Mas não entendam mal: “Trident Wolf Eclipse” é um disco excelente, mas há momentos em que se percebe que a banda se forçou a soar como em seu passado, que os famosos “mimimis” dos fãs chegaram aos ouvidos deles. Há momentos inclusive que melodias soturnas surgem, como se pode ouvir em “A Throne Below”, alguns toques Thrash/Black à lá DESTRUCTION e SODOM aqui e ali. Está ótimo, mas não é tudo que o WATAIN pode oferecer.

Basicamente, o time que trabalhou na produção do disco é o mesmo de sempre. Isso garantiu que o resultado sonoro fosse algo com a qualidade que a banda atingiu em “Lawless Darkness” e “The Wild Hunt”, ou seja, agressivo e ríspido, mas bem feito. A crueza do som vem dos tons instrumentais escolhidos, permitindo assim que os ouvintes compreendam o que a banda está fazendo. Óbvio que certo abafamento que se ouve é proposital, mas dar aquela ambientação crua e opressiva característica da banda.

Em termos de arte, a capa já mostra o que o disco tem musicalmente: uma volta às raízes musicais.

Bruto e agressivo, mesmo tendo recuado em termos evolutivos, “Trident Wolf Eclipse” ainda mostra o quanto o WATAIN tem tudo para ser um dos nomes fortes do gênero, uma liderança forte, pois apesar de mais simples, é justamente dessa forma que se percebe o talento do grupo, o que o diferencia de tantos.

A sedutora e brutal “Nuclear Alchemy” com seus riffs crus e mudanças de ritmo providenciais, o assalto opressivo de baixo e bateria mostrado em “Sacred Damnation”, a força cadenciada de “Teufelsreich”(excelente trabalho de baixo e bacteria, criando uma base rítmica segura e bem trabalhada), a ultra-agressiva “A Throne Below” e seus excelentes vocais (bem como suas belas melodias sombrias e o bom trabalho de baixo), os arranjos simples e eficazes de “Ultra (Pandemoniac)” e de “The Fire Power” formam a espinha dorsal de um dos grandes discos de Black Metal do ano.

É bom se prepararem, pois o WATAIN está de volta para causar caos e destruição, bem como para pulverizar ossos, pescoços e ouvidos!

Nota: 93%



MEDUSA TRIO - Medusa Trio 10 Anos!


Ano: 2017
Tipo: Full Length
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. Sábado de Sol
2. Ondas Rolando no Mar
3. Guitarras Brasileiras
4. Anos 70
5. O Blues do Rock
6. Libertadora
7. Ganhar e Perder (com Willie)
8. 6 Cordas & Muitas Alegrias
9. Trem Azul (versão/Lô Borges)
10. Blues do Medusa


Banda:


Milton Medusa - Guitarras, violão
Rogério Duarte - Baixo
Luis Pagoto - Bateria


Ficha Técnica:

Milton Medusa - Produção, pré-produção
Edosn Paulino - Mixagem, masterização
Michel Téer - Capa (O Bem e o Mal)
Fernando Cardoso - Órgão Hammond em “Libertadora”, “Ganhar e Perder”, “Seis Cordas e Muitas Alegrias” e “Trem Azul”
Willie de Oliveira - Vocais em “Ganhar e Perder”
Daril Parisi - Backing vocals em “Ganhar e Perder”
Fernando Tavares - Baixo
Ronaldo Lobo - Baixo em “Blues do Medusa”
Robertinho do Recife - Guitarra solo em “Seis Cordas e Muitas Alegrias” (2º solo)
Sérgio Hinds - Guitarra solo em “Seis Cordas e Muitas Alegrias” (3º solo)
Mozart Melo - Guitarra solo em “Seis Cordas e Muitas Alegrias” (4º solo)
André Christovan - Guitarra solo em “Seis Cordas e Muitas Alegrias” (5º solo)


Contatos:

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Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


A música no Brasil é algo que está ligado à formação da personalidade de cada um de nós. Não há como existir um cidadão de nosso país que diga que não gosta de algum tipo de música. E dentro do Rock e toda sua amplitude de ritmos, não é difícil ver músicos calejados mostrando sua versatilidade em trabalhos que são ímpares. Nesse modelo, vemos o grupo santista MEDUSA TRIO mostrar uma diversidade musical bem ampla e agradável em “Medusa Trio 10 Anos”, seu primeiro disco.

O trio nasceu de um convite feito ao guitarrista Milton Medusa (professor de guitarra conhecido por sua participação em bandas como V2) para um happy hour no SESC Santos. E dali surge a semente que virou o MEDUSA TRIO, que neste disco mostra-se prioritariamente uma banda instrumental (exceto por “Ganhar e Perder”, onde Willie de Oliveira, que cantou em bandas conhecidas como RÁDIO TÁXI e TUTTI-FRUTTI faz os vocais), que fazia versões instrumentais de clássicos do Pop, Jazz, MPB e Rock Progressivo. Mas como a criatividade de um músico é um bicho carpinteiro que não dá sossego, surgiram ideias que viraram composições, e aqui estão elas nas dez faixas de “Medusa Trio 10 Anos”.

A qualidade sonora do disco é ótima, mesmo sendo um disco totalmente independente. Óbvio que trabalhos instrumentais em geral primam por uma qualidade sonora que permita a perfeita compreensão dos instrumentos musicais, mas ao mesmo tempo, se percebe uma vontade de que o disco soe espontâneo e orgânico (percebam que as faixas onde Milton sola sozinho, não existem bases de guitarra sob eles). A mixagem e masterização deixaram a sonoridade clara e com boa estética.

A arte gráfica é simples e direta, mas funcional. E é muito interessante o uso de descrições de onde as ideias para as músicas foram surgindo. Isso nos permite compreender não só as canções, mas um pouco da história da banda.

Há complexidade técnica e arranjos rebuscados, mas o trabalho eclético e versátil do MEDUSA TRIO é de simples assimilação. Os arranjos e mudanças de ritmo são ótimos. Cada música é um universo distinto a ser explorado. Dessa forma, se permita ser envolvido pela música, absorva com vagar tanta beleza e vigor.

Óbvio que um disco tão homogêneo e diversificado leva tempo para ser compreendido em sua totalidade. E destacar esta ou aquela canção é quase que um ato de injustiça. Mas não há como não bater palmas para canções como “Sábado de Sol” (um típico Rock com jeitão de Blues/Jazz fascinante, aonde os solos da guitarra nos seduzem facilmente), “Ondas Rolando no Mar” e suas lindas melodias que flertam com o Pop Rock em alguns momentos, o jeitão brasileiro de ser de “Guitarras Brasileiras” (o uso de violões encaixa perfeitamente na canção, e reparem bem na versatilidade mestiça de baixo e bateria), a deliciosa levada Bluesy de “O Blues do Rock” (que inclusive já foi apresentada no “Programa do Jô”), o jeito Hard/Progressivo de “Libertadora”(o uso do velho Hammond deu um toque de classe extra à canção, e que belo solo), o Rockão envolvente e descompromissado de “Ganhar e Perder” (quem viveu o início dos anos 80 vai sentir a vibração do proto-Rock Brasil daqueles anos), a versatilidade dos 6 guitarristas em “6 Cordas & Muitas Alegrias” (sim, seis guitarristas, incluindo Milton, mostram seus estilos em solos de guitarras ótimos, e no final, os seis solam juntos), e a espontânea e apoteótica “Blues do Medusa” (que é genial, dentro do jeito eclético de ser do trio).

“Medusa Trio 10 Anos” é o típico disco que só se encontra no Brasil, onde a versatilidade musical derruba barreiras estilísticas, logo, arrume logo sua cópia e boa diversão!

Nota: 96%

BITER - The Eyes of the Biter


Ano: 2017
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. Nightfall
2. Midnight City
3. Mistress of Darkness
4. Wild ‘n’ Free
5. Heavy Metal Hurricane
6. The Eyes of the Biter


Banda:


Diego Alcon - Guitarras, vocais
Jimmy Walker - Guitarras
Brian Adriano - Baixo, vocais
Anderson Bregantin - Bateria


Ficha Técnica:

Adriano Conde - Vocais
Gabriel Aguillar - Vocais
Fabiano Blator - Artwork


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
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Bandcamp:
Assessoria: http://infomusicpress.com/site/ (Info Music Press)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


A paixão pelo Metal oitentista se justifica de várias formas, especialmente porque a diversidade que conhecemos nos dias de hoje começou justamente na primeira metade dos anos 80. O que muitos fãs ainda não compreendem é que não existem proibições sobre se fazer o dito Metal “Old School” nos dias de hoje (mesmo porque música é algo atemporal), mas trilhar por este caminho significa que você vai precisar se atualizar em alguns aspectos, para que a música não vire uma mera cópia do que já foi feito antes. Nesse ponto, o quarteto BITER, de Indaiatuba (SP) mostra que tem boas ideias e muito potencial em “The Eyes of the Biter”, seu primeiro álbum.

Em termos diretos: a banda faz uma mistura de Metal tradicional à lá NWOBHM com aspectos do Speed Metal da primeira metade dos anos 80. Ou seja, boas melodias, nível de energia nas alturas, boa técnica instrumental, mas o que mais surpreende no trabalho deles é a capacidade de pegar todos os clichês do estilo e criar algo cheio de vida. A música flui deles, e não é algo forçado, como muitos teimam em fazer. Não há um resgate ao “feeling anos 80”, mas apenas a vontade de fazer a música que eles gostam. E isso conta muitos pontos.

O ponto que causa alguns problemas é a produção sonora. Ela ficou com volume de som baixo, e soa oca muitas vezes. Talvez o produtor tenha buscado por algo mais orgânico e cru para encaixar na música do grupo, mas se poderia ter feito isso de outras formas. Mas não está de todo ruim, pois se tem a compreensão plena do que está sendo tocado. E a arte ficou muito legal, mais uma vez usando os clichês dos anos 80, mas encaixou como uma luva no que eles fazem.

O trabalho musical do BITERnão busca ser inovador ou criar novas vertentes no Metal. Tão pouco vem querendo puxar o movimento para os anos 80. É algo honesto e que vem do coração, bem feito e muito espontâneo. Eles possuem uma capacidade de criar riffs e refrãos que grudam em nossos ouvidos, de tecer linhas melódicas simples e envolventes. Ninguém precisa ser inovador, não há regras quanto a isso, mas eles possuem identidade, e isso é o suficiente.

O lado musical supera os defeitos, justamente porque eles têm talento, como as seis canções do álbum testemunham. Mas é uma experiência e tanto ouvir Metalzões pesados como “Midnight City”, a energia crua e sedutora de “Mistress of Darkness” (reparem o jeitão Rock ‘n’ Roll à lá CHROME DIVISION em algumas artes, e vocais bem encaixados), o jeito germânico grudento de “Wild ‘n’ Free”, o trabalho peso-pesado de baixo e bateria em “Heavy Metal Hurricane”, e a pegada melódica suja de “The Eyes of the Biter” com seus riffs melódicos e raçudos.

Uma produção melhor da próxima vez (algo como o ENFORCER costuma usar), e ninguém segura esses sujeitos! E não foi à toa que o grupo foi escolhido para participar do Open The Road Festival Open Air, em fevereiro próximo.

Nota: 82%

MORCROF - Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae


Ano: 1999 (relançamento 2018)
Tipo: Demo CD
Nacional


Tracklist:

1. Inustus (intro)        
2. Errante       
3. The Judgment of Demigod (pt.I)
4. From Origin to Dued Cold           
5. Empírico
6. The Judgment of Demigod (pt.III)
7. The Semen of Dead God


Banda:


Ludwick Schölzel - Vocais
R’Bressan - Guitarras
Pétros Nilo - Guitarras
Naitsirch Chironomous Bontus - Teclados
Paullus Moura - Baixo, bateria, violão, backing vocal


Ficha Técnica:

Erinnys Records - Produção
Cássico Martin - Mixagem, masterização
Alberto Salomone - Capa (O Bem e o Mal)
Cris Viana - Vocais femininos
Ludwick Schölzel - Arte, design


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Instagram:
Assessoria: www.facebook.com/cangacorockcomunicacoes/ (Cangaço Rock Comunicações)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Nos últimos tempos, temos visto muitas bandas veteranas recuperando seus materiais antigos em relançamentos bem pensados: de um lado, eles ajudam a trazer o nome da banda à evidência sem um novo lançamento, mas ao mesmo tempo, disponibiliza material raro aos fãs mais recentes. E nisso, o MORCROF, ancião do Black Metal brasileiro, tem sido reapresentado aos fãs mais antigos e introduzido aos mais jovens. Dessa vez, seguindo o ritmo que a parceria com a Erinnys Records dita, é chegada a vez do relançamento de “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae”.

1999 é um ano em que o Brasil está ainda sob os efeitos de uma crise econômica desencadeada por problemas no oriente, e que marca o início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso como presidente do Brasil (o primeiro a ser reeleito), o blecaute de 11 de março que causou um apagão em dez estados, além de marcar o lançamento do Euro como moeda em vários países da Europa.

Em termos de Metal, 1999 é um ano em que o Black Metal no Brasil estava fervendo. Além de evidenciado pelo sucesso de nomes estrangeiros como CRADLE OF FILTH, DIMMU BORGIR, ROTTING CHRIST e outros, OCULTAN, MYSTERIIS e outros soltavam discos que são seminais para o crescimento do estilo no underground brasileiro. Este ano marca o período de expansão do Black Metal brasileiro, que irá durar até 2003 ou 2004, quando começará a regredir um pouco e ocupar seu espaço no cenário.

Para o MORCROF, a Demo Tape “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae” marca sua total adesão ao Black Metal, totalmente despido de influências de Death Metal que marcaram o início de sua carreira. O estilo está bem helenizado, ou seja, na linha ao que bandas como ROTTING CHRIST antigo, VARATHRON, NECROMANTIA e outros nomes da cena grega faziam: algo focado em uma ambientação sonora mais soturna e atmosférica, permeado de teclados sinistros, riffs cortantes, baixo e bateria em uma base rítmica sólida e trabalhada (com o baixo mostrando algumas partes mais técnicas), além de vocais urrados em tons tenebrosos. Além disso, o formato de canções mais longas delineado já em “Scientia ab Mortuus” (Demo Tape anterior) está ainda mais conciso e é a trilha que o grupo segue até os dias de hoje.

Embora ainda careça de maior refinamento sonoro, a produção é bem melhor que a maioria das bandas tinha daqueles tempos (mais uma vez: estúdios custavam muito caro, e a mão de obra de um técnico de som nunca foi algo muito acessível). Mas é nessa crueza que o trabalho do MORCROF se sobressai e ganha vida. Que poderia ser melhor, óbvio que poderia, mas isso em uma visão de hoje, não daqueles tempos românticos e árduos. E a capa nos traz a arte de “O Bem e o Mal”, de Alberto Salomone.

Em “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae”, o sexteto se mostra mais conciso, com sua música soturna adornada de momentos acústicos bem atmosféricos (como se pode ouvir na instrumental “Empírico”). Ou seja, o MORCROF começa a mostrar ainda mais diversidade e técnica, mesmo em uma época que isso era considerado um grave pecado em termos de Black Metal. Mas é aquela velha estória: há quem siga modelos, há quem os destrua para mostrar a personalidade, e o MORCROF faz parte do segundo grupo.

“Inustus” é uma introdução tétrica de teclados com alguns vocais ocasionais, seguida de “Errante”, uma instrumental de teclados lúgubres que serve como ponto de partida para a curta e crua “The Judgment of Demigod (pt.I)”, lenta e azeda até os ossos, com algumas partes bem trabalhadas. Sinistra e cheia de mudanças de ritmo é a longa “From Origin to Dued Cold”, adornada de arranjos elegantes e agressivos de guitarras e baixo, com linhas melódicas muito boas. “Empírico”é uma instrumental de violão e teclados que mostra a versatilidade da banda, um momento mais ameno e melancólico que precede “The Judgment of Demigod (pt.III)”, outra canção curta, embora um pouco mais rápida e dinâmica, mostrando a força dos vocais e da bateria. E “The Semen of Dead God” vem como um compêndio de tudo que a banda mostrou na Demo Tape, com partes acústicas, outras mais rápidas e agressivas, outras mais lentas, melodias orientais que surgem dos teclados, vocais urrando de forma interpretativa, além das guitarras estarem ótimas nos riffs e a base rítmica mostrar sua técnica e manter a diversidade musical do grupo.

Se você gosta de Metal extremo, precisa adquirir “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae”e conhecer o MORCROF. Se você tem a versão original em K7, está mais que na hora de atualizar para uma versão mais moderna e duradoura.

Nota: 90%