quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

KILLEPSIA - Killepsia


Tipo: Extended Play (EP)
Ano: 2017
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. Role Model
2. Bordado
3. Império
4. Incertezas


Banda:


Ian Ge Eff - Vocais, baixo
Vicente Telles - Vocais, guitarras
Giuseppe Oppelt - Guitarras
Rafael Severo - Bateria


Ficha Técnica:

Ciente Telles - Produção, mixagem
Ian Garbinato - Produção
Marcos Abreu - Masterização
Pedro Valadão - Artwork


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/killepsia/ (Metal Media)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Quando se fala em Metal Progressivo, ou Prog Metal, um amplo espectro de idéias surge para tentar definir quais elementos musicais seriam marcantes. A construção não é simples, mas podemos definir que o estilo se sustenta sobre dois pilares principais:

1.      A fusão do peso e melodia do Metal com elementos de Rock Progressivo;
2.      Uso de uma técnica instrumental rica.

Assim sendo, o restante fica a gosto de cada banda que se aventura por estes caminhos musicais. O KILLEPSIA, de Porto Alegre (RS), é um quarteto corajoso, e mostra no seu segundo EP, “Killepsia”, que tem muito potencial.

O grupo rebusca bastante nas influências musicais, com toques de Jazz e MPB em muitos pontos, o que lhes dá diversidade musical. Por outro lado, eles procuram fazer algo pesado e coeso, sem que as viagens progressivas/técnicas sejam mais longas que a paciência de ouvintes comuns possa suportar. Ao mesmo temo, a banda tem momentos musicais bem agressivos, deixando claro que o negócio com eles é peso. Eles ainda podem evoluir bem mais nessa mistura, mas já mostram personalidade para sobreviverem às tribulações do cenário.

A produção ficou muito boa. Como o grupo se foca na fórmula de vocais-guitarras-baixo-bateria, a sonoridade ficou muito boa, com boa timbragem e um nível de clareza muito bom. Óbvio que podem melhorar nesse ponto, mas já está bom. A arte, por sua vez, é bem simples e direta, mas funcional, permitindo que a atenção do ouvinte fique focada na música em si.

O grupo tem potencial para ir longe, isso fica claro nas quatro canções do EP. Mas é preciso que o grupo dê uma atenção especial e urgente aos vocais, já que além de não estarem compatíveis com o som do grupo, lhes falta maior alcance. Um pouco de treino ao ajudará nesse sentido. Já os instrumentos musicais estão bem, com boa técnica e mudanças de ritmos bem pensadas. E eles sabem arranjar as composições de forma que elas não soem cansativas ou mecânicas.

Das quatro composições, “Role Model” é a única cantada em inglês, e que por sua vez, é recheada de ótimos arranjos de guitarras e boa dose de agressividade. Em “Bordado”, se percebe claramente o lado heavyssívo do grupo, embora ela tenda a ser mais simples, com o baixo dando um show à parte. Bem diversificada e com passagens técnicas interessantes é “Império”, que por ser a mais longa (mais de sete minutos de duração), possui um trabalho de bateria muito bom, com boa técnica e peso, fora os inserts de Jazz e MPB. E em “Incertezas”, a pegada é mais pesada e se percebe forte dose de agressividade, mas sem que a técnica que permeia o trabalho deles se perca.

O EP mostra um grupo bem promissor, e acertando os vocais, o resto se acerta.

Nota: 74%

LA RAZA - Bem Vindos a La Raza


Tipo: Full Length
Ano: 2017
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1.      Bem Vindos a La Raza
2.      Na Contra Partida
3.      /Quem?
4.      Atrás de um Sonho
5.      O Bem
6.      Virar o Jogo
7.      O Dia em Que o Pai Chorou
8.      Pra Onde Seguir?
9.      Caos da Paz
10.  Cai Dentro


Banda:


Alex Panda - Vocais
Ticana - Guitarras
Juninho - Baixo
Daimon - DJ
Matricardi - Bateria
  
Convidados:

Badauí - Vocais
Caio MacBeserra - Vocais
Xis - Vocais


Ficha Técnica:

Baffo Neto, Guilerme Steiner, La Raza - Produção, mixagem
Dani Pampuri - Mixagem, masterização
Diego Rabujah - Capa
Xtudo Obze - Layout


Contatos:

Twitter:
Bandcamp:
Assessoria: http://www.hoffmanobrian.com.br/ (Hoffman & O’Brian)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Para alguns fãs mais radicais, a versatilidade do Hardcore poderia soar algo um pouco fora de dos princípios musicais do gênero. Mas é fato que após a diversificação ocorrida no final dos anos 90, tal qual uma árvore, o Hardcore ganhou ramos bem distintos, mas sempre mantendo os elementos mais seminais, como a agressividade musical e a acidez lírica. Por isso, ao lidar com uma banda como LA RAZA, é preciso ter em mente que ela é fruto de toda uma evolução musical. E, além disso, verdade seja dita: “Bem Vindos a La Raza” é um disco excelente!

A fúria do Hardcore e aqueles corais característicos estão presentes, a presença de riffs simples e bem feitos, e aquela fúria nas letras são todos elementos presentes. Mas ao mesmo tempo, claras influências de Rap, Hip-Hop, toques de Funk/Soul estão presentes, além de scratches. Agressivo, cheio de Groove e musicalmente diversificado, é nisso que se baseia a música do quinteto. E verdade seja dita: não falta energia, e é impossível ficar parado!

Muito bem cuidada foi a produção sonora de “Bem Vindos a La Raza”. Tudo soa limpo e claro, sem estar confuso. Mas nem por isso soa menos agressivo, muito pelo contrário, já que o carrego sonoro do HC está presente em todos os momentos. Óbvio que há momentos em que a música do grupo soa acessível aos menos acostumados (como se ouve em “Atrás de um Sonho”), mas isso mostra como o quinteto é extremamente versátil em termos musicais.

A arte é muito legal. A imagem da banda que fica é de um grupo que, apesar de toda sua militância social, tem uma aura divertida, algo que anda meio fora de moda nos dias de hoje, mas que ficou ótimo.

Nas canções de “Bem Vindo a La Raza”, se percebe que o quinteto não é um grupo de ficar preso a uma musicalidade só. Usando elementos dos estilos citados acima, a música do grupo se torna única e diferente, empolgante e capaz de desencadear pogos infindáveis. E percebam que essa diversidade de influências exige que existam arranjos bem dinâmicos, o que é encontrado em profusão, mesmo em músicas curtas (uma média de 3 minutos de duração cada uma).

E os caras são raçudos!

Percebam que “Bem Vindos da La Raza” é um disco ótimo do início ao fim, se destacando (para mera referência) a ótima e acessível “Bem Vindos a La Raza” e sua levada melodiosa (que riffs e vocais bem construídos, além de um refrão simples), a funkeada e cheia de groove “Na Contra Partida” (baixo e bateria se exibem em termos técnicos, mas mantendo uma base rítmica compacta), as melodias de fácil assimilação em uma canção altamente grudenta que é “Atrás de um Sonho” (que letra legal, além de vocais de primeira), a também acessível “O Bem” (embora o refrão seja um murro nos ouvidos), a energia ais crua mostrada pelas guitarras em “O Dia em Que o Pai Chorou”, o peso denso de “Pra Onde Seguir?”, e a porrada entremeada de scratches de “Cai Dentro”.

“Bem Vindo a La Raza”veio ao mundo no dia mundial do Rock de 2017, demorou um pouco para ganhar sua versão física, mas aí está. E se preparem, pois o quinteto vai conquistar muitos!

Nota: 88%



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

WRATH SINS - The Awakening


Tipo: Full Length
Ano: 2018
Importado


Tracklist:

1.      Beneath Black Clouds
2.      Unquiet Heart
3.      Shadow’s Kingdom
4.      Collision
5.      The Sun Wields Mercy
6.      Fear of the Unseen
7.      Strepitant Mist 
8.      Between Death’s Line
9.      The Awakening 
10.  Silence from Above


Banda:


Miguel Silva - Vocais, guitarras
Rui Coutinho - Guitarras
Ricardo Nora - Baixo, backing vocals
Diego Mascarenhas - Bateria

Convidados:

Eduardo Sinatra - Bateria
André Ribeiro, Mário Lopes, João Rocha


Ficha Técnica:

André Matos, Miguel Silva - Produção, mixagem
Caesar Craveiro - Masterização
Miguel Silva - Artwork, layout


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Instagram:
Assessoria: trmpress.com.br (TRM Press)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Todos sabem que o Brasil e Portugal guardam laços históricos de longa data. Mas é estranho que, mesmo nessa era regida pela informação instantânea, o público brasileiro não tem a dimensão de como é ampla e criativa a cena Metal Lusitana. Tem momentos em que simplesmente ver o nome de uma banda associada ao país para que já tenhamos certeza de que vem coisa boa aí. E no caso do quarteto WRATH SINS, da cidade de Porto, essa associação é plausível, já que o segundo disco deles, “The Awakening”, mostra uma banda de primeira!

O quarteto mostra que não é conservador em nada. Musicalmente, vemos uma banda de Progressive Thrash Metal moderno, cheio de vigor e melodias, mas com ótima técnica instrumental. A impressão que temos sobre o trabalho musical do quarteto é de que Chuck Billy foi cantar no TRIVIUM, ou seja, uma base instrumental agressiva e densa, mas com um vocal agressivo de timbres rasgados naturais (e alguns mais normais em alguns momentos). E apesar do pouco tempo de atividade (a banda foi formada em 2011), mostram um trabalho maduro e de muita energia, com algumas partes mais soturnas aqui e ali.

Ao se falar da qualidade sonora, é preciso ter em mente que não estamos lidando com uma banda cuja música seja convencional, logo, a produção de Miguel Silva e André Matos (não confundir com o vocalista brasileiro) é bem experimental, buscando timbres modernos bem definidos, fugindo dos timbres graves usuais. E tudo está claro, nos permitindo compreender o que eles fazem, mas com uma ótima dose de peso e agressividade. E a arte, também de Miguel Silva, é antenada com o trabalho denso e musicalmente azedo do grupo.

O WRATH SINS não tem medo de ousar, fica claro em cada uma das canções de “The Awakening”. A banda sabe arranjar bem suas músicas para dar consensualidade ao que fazem, e digamos que não é algo simples, já que eles não estão presos a uma fórmula sonora específica. Se isso os torna um tanto quanto difíceis de classificar, também mostra que são corajosos o suficiente para buscarem algo novo para si em uma época em que a clonagem do passado é permitida sem restrições.

Todas as canções de “The Awakening” são muito boas, mas as mudanças de ritmo e energia azeda quem preenchem “Unquiet Heart” (veja que baixo e bateria capricham em termos técnicos e peso o tempo todo), os riffs sinuosos e densos de “Shadow’s Kingdom”e seu ritmo cadenciado e pesado, a brutalidade que beira o Death Metal exposta em alguns momentos da agressiva “The Sun Wields Mercy”, o slamdancing intenso de “Fear of the Unseen”, a complexidade Thrasher de “Between Death’s Line” (alguns vocais melodiosos surgem de forma bem espontânea no refrão), e a opressiva “The Awakening” e suas passagens que mixam brutalidade e melancolia.

Digamos de passagem: o WRATH SINS é, sem sombra de dúvidas, um candidato ao posto de revelação, mesmo sendo “The Awakening” o segundo disco deles.

Nota: 94%


PASTORE - Phoenix Rising


Tipo: Full Length
Ano: 2018
Importado


Tracklist:

1. Phoenix Rising
2. Damn Proud
3. Symphony of Fear
4. March of War
5. No More Lies
6. Salvation Paradise
7. I Need More
8. Holy War
9. Time Goes By
10. Get Outta My Way
11. Fire and Ice
12. Lightning Strikes Again (canção bônus da edição japonesa)


Banda:


Mario Pastore - Vocais

Convidados:

Márcio Eidt - Guitarras
Ricardo Baptista - Guitarras
Johnny Moraes - Guitarras
Fábio Carito - Baixo
Marcelo de Paiva Berno - Bateria
Edu Ardanuy - Guitarras em “Lightning Strikes Again”


Ficha Técnica:

Márcio Eidt - Produção, mixagem, masterização


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Instagram:
Bandcamp:
Assessoria: trmpress.com.br (TRM Press)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


O Brasil sempre foi um país onde o Metal daqui é primeiramente aceito e aplaudido fora. Muito disso vem do background cultural do público brasileiro, ainda com forte ranço do período colonial, aonde o colonizador vinha para cá na esperança de encher os bolsos de dinheiro e queria sair daqui, voltar para a metrópole. De tanto o pensamento ser repetido na época, entrou no DNA cultural de nosso povo, sendo uma das raízes desse desprezo dos headbangers brazucas pelo produto nacional. São muito bobos os que pensam assim, já que uma ouvida em um discão como “Phoenix Rising”, novo do PASTORE, põe esse tipo de pensamento a nocaute. E ele foi lançado primeiramente fora do país, pela gravadora japonesa Spiritual Beast Records (mas o disco pode ser encontrado na Die Hard Records e na 

Transitando entre o Metal tradicional e um pouquinho do Power Metal alemão dos anos 80, com uma novidade: a pegada melodiosa de sempre está presente, mais um pouco mais seca e agressiva. Sim, nesse disco, o PASTORE vem mais atualizado e agressivo, talvez um retrato do momento difícil em que o país vive em vários sentidos. Ótimas estruturas harmônicas, refrãos de assimilação simples, peso e energia em quantidades homeopáticas... Justamente aquilo que o médico receitou para o coração de qualquer headbanger que se preze bater feliz.

A produção fez com que a sonoridade do disco ficasse bem seca, dura e pesada, com boa escolha de timbres sonoros em cada um dos instrumentos. Ao mesmo tempo, se a agressividade ficou evidente, temos que a sonoridade não oblitera o lado melodioso ao qual estamos acostumados em trabalhos de Mario Pastore. Pelo contrário, as linhas melódicas são bem claras aos ouvidos. E na bela capa, se percebe que o grupo vive um momento em que está renascendo das cinzas, após 5 anos de silêncio desde “The End of Our Flames”, de 2012, e fato interessante: mais uma vez, o artista escolhido para trabalhar com os aspectos gráficos foi Marcelo Berno, o mesmo dos discos anteriores da banda.

Talvez o nome do disco diga tudo: a Fênix ressurge, logo, é sinal que o PASTORE renasceu. E veio pronto para lutar e crescer, já que esse “insight” moderno deu uma revigorada e tanto ao trabalho da já elegante da banda. Além disso, se percebe que eles estão mais soltos, mais coesos, e a presença de músicos como Fábio Carito (baixo, do ADDICTED TO PAIN, SUPREMA, INSTINCTED), o ex-companheiro do HEAVIEST Márcio Eidt nas guitarras, além de Ricardo Baptista(guitarras, do TIMOR TRAIL e LAUDANY), Johnny Moraes (guitarras, HEVILAN), e Marcelo de Paiva (bateria, ex-GUILLOTINE) só fizeram bem ao resultado final. Além deles, Edu Ardanuy, um dos guitarristas mais virtuosos do Brasil, dá uma canja nas seis cordas em “Lightning Strikes Again”. A qualidade está mais que garantida.

O disco possui 12 canções de primeira, já que temos em mãos a versão japonesa (que possui uma faixa bônus). Mas não há como não destacar o peso avassalador de “Phoenix Rising”e sua pegada agressiva, as guitarras sinuosas e provocantes de “Damn Proud”, o jeitão mais moderno de “Symphony of Fear” e a interpretação de primeira dos vocais (falar de Mario Pastore e chover no molhado, pois o homem é um dos grandes vocalistas d Metal nacional, mostrando uma versatilidade de timbres ótima), as belas melodias introspectivas de “No More Lies”(onde baixo e bateria estão bem evidenciados e com boa técnica), a impactante e bruta “I Need More” (o refrão é bem fácil de assimilar), a elaboração agressiva de “Holy War” e a pegada mais “Old School” de “Fire and Ice”. Agora, a faixa-bônus chega a ser uma covardia com o coração, já que a versão mais pesada e agressiva que “Lightning Strikes Again”, do DOKKEN, ganhou, chega a ser um abuso de tão boa (especialmente pelas guitarras e pela beleza dos vocais).

O PASTOREmostra-se renovado e pronto para mais um round no meio. Logo, preparem-se, pois “Phoenix Rising” veio para quebrar ossos!

Nota: 91%


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

MALEFACTOR - Sixth Legion


Tipo: Full Length
Ano: 2017
Nacional


Tracklist:

1. Counting the Corpses
2. Stygia
3. They Speak My Name in Tongues
4. The Styx River
5. Behold the Evil
6. Sodom and Gomorrah
7. Down at the Valley of the Great Encounter
8. The Humanist
9. Cross and Fiction
10. Borgia


Banda:


Lord Vlad - Vocais, baixo
Danilo Coimbra - Guitarras, orquestrações
Jafet Amoêdo - Guitarras

Convidados:

Thiago Nogueira - Bateria
Paulo Henrique Santiago - Orquestrações, flauta em “Down at the Valley of the Great Encounter (Horrified cover)”


Ficha Técnica:

Lord Vlad - Produção
Danilo Coimbra - Produção
Jafet Amoêdo - Produção
Vicente Fonseca - Mixagem, masterização, produção
Sérgio “Baloff Borges - Assistente de letras
Argos - Arte gráfica


Contatos:

Site Oficial:
Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Durante o período de expansão do Império Romano, duas legiões de soldados se tornaram famosas: a Legio VI Victrix (“Sexta Legião Vitoriosa”) e a Legio VI Ferrata (“Sexta Legião Encouraçada”). A primeira é conhecida por suas campanhas na Hispânia, Germânia e Britânia, enquanto a segunda (tida por muitos historiadores como uma sequência da primeira, ou mesmo tendo em suas fileiras muitos veteranos da mesma, uma tradição dos tempos de Júlio César) lutou nas guerras civis romanas entre 40 e 30 DC, sendo mandada posteriormente para a Judéia, onde permaneceu por dois séculos.

Mas tão encouraçados ou vitoriosos são os Centuriões do Metal extremo nacional, o MALEFACTOR, de Salvador (BA), que chega com seu mais recente álbum, “Sixth Legion”.

Reduzidos a um trio nas gravações, o grupo não se fez de rogado e continua sua tradição musical: é quase impossível rotular o trabalho deles, pois o amálgama de influências é tão grande que pode iludir a percepção de muitos. Melodias de Metal tradicional que surgem nas guitarras convivem bem com vocais ora urrados, ora normais e algumas intervenções de timbres rasgados (embora mostrando alguns tons vocais diferentes), fora a técnica musical muito boa de baixo e bateria, fora as orquestrações. E o amadurecimento de 26 anos de estrada fez com que a banda soasse ainda mais coesa que antes, mais firme e pesada, mas sem perder a ótima noção harmônica agressiva.

Traduzindo: “Sixth Legion” é mais um clássico da banda, mas mostra-os em um patamar qualitativo absurdo.

O time que trabalhou na produção do disco caprichou em termos de qualidade: a sonoridade de “Sixth Legion” é excelente, pois ela conseguiu aliar peso e clareza de forma perfeita, sem contar que o peso está abusivo. Os timbres sonoros foram escolhidos muito bem, e isso no caso deles nunca é simples (como dito acima, mixar tantas influências é um trabalho enorme). Além disso, no que tange a apresentação visual, tudo está muito caprichado em termos de capa e encarte, sempre com tudo trabalhado em tons de cores não muito convencionais. Mas o MALEFACTOR está longe de ser convencional.

A verdade seja dita: neste que é o sexto disco da banda, o foco instrumental da banda está bem mais homogêneo, bem mais criativo que antes. E a qualidade musical está distribuída de forma homogênea pelas 10 composições. Sem falar que a capacidade de criar arranjos está ótima (reparem bem nos solos), e como as músicas grudam nos ouvidos, algo que não é comum em bandas de Metal extremo. Ou seja, “Sixth Legion” é um disco onde tudo é possível!

O ataque dessa Legião começa com a trabalhada e veloz “Counting the Corpses”, onde melodias súbitas e criativas surgem em vários momentos das guitarras (Danilo e Jafêt se mostram muito entrosados, com riffs e duetos perfeitos). Ela é seguida de “Stygia”, com tempos não tão velozes, e que é rica em arranjos e melodias (o uso de timbres limpos nos vocais de Lord Vlad em algumas artes ficou algo maravilhoso). Um pouco mais cadenciada e fria como aço temperado em fogo e gelo é “They Speak My Name in Tongues”, capaz de empolgar até mesmo um defunto (reparem bem como baixo e bateria estão debulhando nas partes instrumentais, entremeados por teclados sinistros). A beleza de “The Styx River” não pode ser medida, já que as partes com guitarras limpas e teclado seduzem nossos ouvidos, e nas partes mais pesadas, os vocais variam muito entre guturais, rasgados e limpos, mantendo o peso e melodias à lá JUDAS PRIEST em equilíbrio (fora as referências ao universo de Robert Howard, criador de Conan). Mantendo o enfoque técnico e com uma pegada bem Melodic Death Metal é “Behold the Evil”, mas sempre com a pancadaria garantida pelo ótimo trabalho da base rítmica. Mesmo mantendo as harmonias, “Sodom and Gomorrah” é bem agressiva e rápida, cheia de riffs causticantes e boas mudanças de tempos (preciso comentar que o tema central das letras são as cidades de Sodoma e Gomorra, cuja destruição é narrada no livro do Genesis?). Mostrando que são capazes de coisas que até os deuses duvidam, eles fizeram uma versão grandiosa para “Down at the Valley of the Great Encounter”, do grupo grego HORRIFIED, com muito peso e melodia nas guitarras e boas passagens sinistras, onde flautas e orquestrações surgem, mas sempre com a personalidade do MALEFACTOR. Partes tenebrosas com vocais sinistros introduzem “The Humanist”, também com passagens mais lentas e envolventes com a presença de teclados, belos vocais limpos aqui e ali, riffs de guitarras envolventes (e tudo para envolver o ouvinte na aura densa do discurso de John Milton, interpretado por Al Pacino, em “O Advogado do Diabo”). Com uma levada extremamente ganchuda é a azeda “Cross and Fiction”, permeada por uma densa atmosfera caótica e arranjos mais agressivos, onde baixo e bateria mais uma vez roubam a cena, embora seja a música mais simples do disco em termos de arranjos e mudanças rítmicas. E fechando, temos a ambientação opressiva e melancólica de “Borgia”, outra em que o quarteto mostra uma abordagem mais direta, embora as passagens limpas e melodiosas sejam um deleite, e para quem não percebeu, a letra fala do Papa Alexandre VI, nascido Rodrigo Bórgia, ou Roderico de Borja, espanhol em cujo papado de dez anos (morreu 7 dias antes de completar 11 anos no trono de São Pedro) os escândalos se acumularam no Vaticano, tanto que o nome Borgia se tornou sinônimo de libertino e nepotismo, mas também é conhecido pelo patronato das artes (lembrando que ele foi Papa durante o período Renascentista).

No mais, pouco se pode falar de “Sixth Legion” que não seja que este é um dos melhores discos de Metal produzidos no Brasil. E falo sério!

Avante, Centuriões! Avante, MALEFACTOR!

“TODOS IGUAIS, TODOS PELO METAL!”

Nota: 100%

TCHANDALA - Resilience


Tipo: Full Length
Ano: 2017
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. The Flame
2. Labyrinth
3. Valley of Greed
4. Lamento do Velho Chico
5. Tears of River
6. Echoes Through the Fourth Dimension
7. Flatland
8. Shadows
9. Father’s Spirit
10. Caesar
11. Resilience
12. Echoes Through the Fourth Dimension


Banda:


Dejair Benjamim - Vocais, corais
Thamise Ducci - Guitarras
Rafael Moraes - Guitarras
Sandro Souza - Baixo
Pablo Rubino - Bateria, corais


Convidados:

Tim “Ripper” Owens - Vocais em “Caesar”
Iuri Sanson - Vocais em “Valley of Greed”
Renan Fontes - Vocais em “Echoes Through the Fourth Dimension”
Clarice Pawlow - Vocais em “Echoes Through the Fourth Dimension”
Dan Loureiro - Vocais adicionais em “The Flame”, corais
Luana D’Almeida - Vocais adicionais em “Caesar”, corais
Marcos Franco - Corais
Pedro Teles - Corais
Tnoy Souza - Teclados em “Echoes Through the Fourth Dimension”
Will Moreira - Teclados em “Caesar” e “Shadows”
Jack Ferreira - Teclados em “Father’s Spirit”


Ficha Técnica:

Tchandala, Marcos Franco, Dan Lourenço - Produção
Sérgio Basset,  Marcos Franco, Dan Loureiro - Mixagem, masterização
Marlon Delano - Arte gráfica


Contatos:

Bandcamp:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/tchandala/ (Metal Media)



Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Fazer Metal no Brasil, em qualquer uma de suas muitas vertentes, é sempre uma prova de amor, como um casamento: existirão ótimos momentos, outros nem tanto, e mesmo as crises são constantes. É preciso ter resistência, paciência e querer muito fazer com que tudo dê certo. E resiliência (que significa a “capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”) é uma das características do TCHANDALA, grupo de Aracaju (Sergipe), um veterano com 21 anos de muita labuta no underground. E não é mero acaso que o título do terceiro disco do grupo é “Resilience”.

A primeira coisa que salta os olhos é que o grupo deu uma leve modernizada em sua abordagem do Heavy Metal tradicional. Isso significa que o som do grupo continua pesado e melodioso, com aquele mesmo jeitão polido, mas com uma estética mais jovem e vigorosa. Existem momentos em que bumbos duplos aceleram, mas em geral, os ritmos são comportados. Existem também partes em que vários vocais participam ajudando as linhas principais. E sem mencionar as belas linhas melódicas das guitarras (que capricharam nos riffs e solos).

Ou seja, o quinteto continua com sua identidade musical característica, mas mostrando que não vai cair no comodismo.

A produção de “Resilience”é bem caprichada, permitindo que a banda soe clara e de forma que o ouvinte compreenda o trabalho deles sem esforços. Mas ao mesmo tempo, aquela dose de peso e agressividade necessária está presente, bem como a energia flui das músicas de forma espontânea.

No tocante ao lado gráfico, a arte da capa é muito bela, e além disso, houve um capricho muito grande na diagramação, de forma que as imagens do encarte estivessem alinhavadas com o conteúdo de cada uma das letras.

Musicalmente, o TCHANDALAvem mais pesado que antes. Os arranjos ficaram mais trabalhados, mas sem que o lado melodioso ficasse comprometido. Além disso, a banda sempre teve um lado mais acessível que continua presente, mesmo embaixo de tanto peso. E os convidados, listados no início dessa resenha, dão um toque a mais de classe ao disco.

Nas 12 faixas de “Resilience”, o grupo se mostra em uma fase muito criativa, se destacando na sedução melodiosa de “The Flame” (uma canção não muito veloz, recheada de boas guitarras, um refrão grudento e teclados providenciais), a pesada e demolidora de pescoços “Labyrinth” (a base rítmica está ótimas, com boas mudanças rítmicas e técnica muito boa), a sinuosa e agressiva “Valley of Greed” e seu dinamismo (ajudado pela participação dos vocais de Iuri, ex-HIBRIA), o tema incidental “Lamento do Velho Chico” que introduz a causticante “Tears of River” e sua energia crua, e nas letras se percebe um manifesto ecológico (Velho Chico um apelido dado ao Rio São Francisco, que faz fronteira entre Alagoas e Sergipe, e que anda tendo problemas por causa do destrato humano com a natureza), e no final, um pouco de música regional do Nordeste do Brasil está inserido; a belíssima e envolvente “Echoes Through the Fourth Dimension” e seus lindos vocais (fora Dejair, ainda estão presentes Renan Fontes e Clarice Pawlow, que formam a dupla WRITE ME A LETTER, dando uma canja bonita), o peso cavalar e elaborado de “Flatland”e “Shadows”, a pancadaria explosiva que se ouve em “Caesar” (onde Tim “Ripper” Owens dá uma canja e participa nos vocais) e em “Resilience”, ambas com ótimos vocais e guitarras faiscando. E fechando, uma linda versão acústica para “Echoes Through the Fourth Dimension”, que ficou absurdamente linda, mostrando a versatilidade do grupo.

No mais, o TCHANDALAse mostra vivo e disposto para encarar novos desafios. E “Resilience” certamente os levará a outro patamar.

Nota: 88%

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Entrevista com Patrice Guers (RHAPSODY REUNION)

Por Isabele Miranda (Maximus Music Channel) e Vivian Oliveira (Valrock Zine)


Patrice Guers foi o antigo baixista da banda de metal sinfônica italiana RHAPSODY OF FIRE. Ele se juntou à banda depois que Alessandro Lotta deixou a banda e tocou com eles até 2011, quando ele saiu da banda com o guitarrista Luca Turilli para formar o LUCA TURILLI’S RHAPSODY. Depois de uma turnê Ásia no mês passado, Rhapsodyretornará ao Brasil no dia 7 de janeiro em São Paulo, no Tom Brasil. Na sequência, a banda segue para 6 países da América Latina e depois segue para a Europa. Confira a entrevista com o baixista da banda!



Você tocou com o RHAPSODY OF FIRE de 2002 a 2011. Por que resolveu deixar a banda naquela época?

Patrice Guers:Após o fim da saga no RHAPSODY OF FIRE, Lucna decidiu começar uma nova banda, a LUCA TURILLI’S RHAPSODY, e me pediu se eu queria estar nela com ele. É claro que foi uma honra seguir a aventura com tamanho compositor, adoro o universo musical dele. Foi algo realmente natural. Após tantos anos compondo com a mesma banda, eu consigo compreender totalmente a necessidade de Lucca de novas aventuras musicais com liberdade plena. Da mesma forma, também é muito bom voltar às raízes com a RHAPSODY REUNIONapós alguns anos.


Com tantos shows e turnês longas, como você concilia tudo isso com as aulas de baixo?

Patrice: Estou livre das clínicas de baixo e aulas. Posso planejá-las quando estou disponível, e também dou aulas de baixo pelo Skype. Logo, não existem problemas de estar em turnê. Fazer turnês e tocar em shows é minha atividade principal nos últimos 25 anos, amo fazer isso.


Em sua opinião, o que difere o público latino americano daqueles de outros continentes?

Patrice: o público latino americano é fantástico! E não é um cumprimento, mas verdade! Quando estamos aqui, eles nos seguem do aeroporto até o show, J. Adoro a atmosfera latina, o bom clima, as pessoas rindo, dançando, ouvindo música... Descobrir a cultura latino americana, andar pelas ruas, visitar lugares e encontrar as pessoas é algo necessário para mim. Não é só vir aqui, tocar e depois voltar para casa.


Quais são os planos após a turnê europeia?

Patrice: Com o RHAPSODY, absolutamente nenhum, J


O que pode nos dizer sobre Fabio Lione enquanto vocalista da banda brasileira ANGRA?

Patrice: Fabio é um cantor fantástico, não importa em qual banda. Como artista, ele está certo em fazer aquilo que quiser e gostar. O ANGRAé uma grande banda e com ótimos músicos. O que posso ver após estes anos tocando com bandas diferentes é que Fabioestá melhor que nunca. Estou fazendo a mesma coisa como baixista, tocando com bandas diferentes com estilos que vão do Blues ao Funk. É muito interessante juntar todas essas influências em cada nota que toco. Cada nova experiência musical é importante para um músico que sempre que ser melhor. Não existe fim na evolução como músico.


A 20th Anniversary Farewell Tour foi anunciada em novembro de 2016, trazendo os ex-membros do RHAPSODY. Quais são os planos da banda para o final da turnê, e consequentemente, quais os futuros planos da banda e seus?

Patrice: Nada está planejado para o RHAPSODY após a turnê europeia em março. Então, eu irei excursionar com outras bandas como tenho feito por muitos anos. Ainda estou estudando música, viajando pelo mundo para aprender sobre ritmos africanos, batidas cubanas, etc... Como músico, é importante para mim tocar coisas diferentes e aprender onde quer que seja. Isso não significa tocar linhas de baixo de Salsa em música Heavy Metal, é apenas como se sente tocando bateria para criar o melhor groove possível, e dar o melhor para a música. É fantástico ver a relação entre todos os estilos musicais, do Blues ao Rock ‘n’ Roll e ao Heavy Metal... Algumas vezes, você sente que é tudo o mesmo, com uma mudança no som das guitarras, por exemplo, J.


Quais são suas expectativas em relação ao show de São Paulo?

Patrice: Apenas um show no Brasil nessa turnê, então esperamos muita loucura nele. Brasileiros, venham e fiquem loucos conosco nesta última oportunidade de ver um show do RHAPSODY. Vamos lhes dar nosso melhor!