quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A Desgraça de Orellana contada pelo Metal extremo - Entrevista com o MIASTHENIA


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


O Brasil é um centro de formação de ótimas bandas de Metal, em todas as vertentes do estilo. Mas ainda estamos engatinhando no que tange falar de nossa cultura, e muitas vezes, o brasileiro parece sentir vergonha de suas raízes. Mas existem aqueles que resistem, que sentem orgulho das raízes pagãs dessa terra manchada de sangue e ganância do colonizador, e que promovem um levante nativo. Entre eles, o pioneiro MIASTHENIA, que desde 1994 vem lutando no underground, e que agora, lança “Antípodas”, seu mais recente álbum, onde a temática central é a saga de Francisco de Orellana contada sob a perspectiva das guerreiras Icamiabas.

Aproveitando o lançamento do disco, tivemos a oportunidade de entrevistar Hécate, tecladista/vocalista do grupo, e mergulhar mais fundo no contexto lírico/musical de “Antípodas”.


BD: Salve, Hécate. Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevistar você. Logo de início: como e quando teve contato com a saga de Francisco de Orellana, e como surgiu a ideia de abordar esse tema? Aliás, a clara impressão que tive é de que esse tema permeia todas as letras, criando um disco conceitual, estou certo?

Hécate: Eu agradeço pela sua entrevista e apoio ao MIASTHENIA. Sou Professora e Doutora em História e estudei as crônicas escritas pelos conquistadores/colonizadores sobre os ameríndios nos séculos XVI e XVII, então tive contato com essa obra quando já quando realizava o Mestrado (1999-2002), especialmente através dos estudos de minha ex-orientadora sobre a imagem das guerreiras amazonas na história. No álbum “Batalha Ritual”(2004) já tinha uma música (“Zôster”) sobre as amazonas, então eu já vinha também me preparando e lendo sobre isso. Mas como você bem observou, essa história de Orellana e das amazonas inspirou todo o álbum.


BD: Tanto no encarte do CD como em uma declaração em uma nota de imprensa, o significado da palavra “Antípodas” é explicado por vocês. Mas como cito acima, a luta das Icamiabas contra Orellana é um tema recorrente nas letras. Existe alguma ligação entre esses dois temas que poderia nos explicar?

Hécate: Sim, tudo está conectado, porque Antípodas se trata da forma como os seres (vistos como amazonas/icamiabas, canibais, cinocéfalose iwaipanomas) confrontados na América representam o que há mais selvagem, pecaminoso, abominável e demoníaco no imaginário cristão dos conquistadores dos séculos XV e XVII. Todos esses seres foram representados iconograficamente nos antigos mapas onde a América figurava como território selvagem e inóspito, como uma Antípoda (oposição) do mundo cristão e civilizado. O álbum é uma crítica a essa visão cristã, de forma poética busca desvelar a vontade de poder e dominação daquilo que era diferente e inconcebível a uma sociedade colonial cristã que se tentava implantar na América.  


BD: Aliás, vamos direto e reto ao assunto: muitos fãs não fazem a mínima idéia de quem elas são, logo, que tal uma explicação sobre elas?

Hécate: As amazonas são mulheres guerreiras que aparecem em várias relatos desde a Grécia Antiga. Com a conquista da América, os europeus se depararam com inúmeras sociedades onde as mulheres poderiam atuar como guerreiras e lideranças tribais, e isso no imaginário dos conquistadores só poderia encontrar algum sentido e explicação nas suas antigas tradições de mulheres míticas e abomináveis que escapavam dos padrões de feminilidade frágil, submissa e que seriam inimigas dos homens e da moral. Logo associaram tais mulheres a essas que já povoavam o imaginário cristão/europeu há séculos. O problema é que nessa associação as mulheres indígenas foram convertidas em bruxas, feiticeiras e seres ainda mais pecaminosos, por se conectarem com um tipo de sociedade matriarcal que devia subverter a norma cristã, ou seja, constituindo-se em um pesadelo e ameaça. Não por acaso, a violência colonial/patriarcal usou de tais imagens para dominar e evangelizar os indígenas. As icamiabas seriam mulheres guerreiras que viviam sem a presença de homens em sua comunidade na região do rio Amazonas em 1542 (época da expedição de Orellana pelo grande rio), que, aliás, recebe esse nome por conta de uma série de relatos dos próprios indígenas que deviam tributos ou eram aliadas dessas mulheres. Orellana associou essas mulheres às antigas amazonas de relatos míticos gregos. Assim, na América os antigos mitos encontravam realidade e acabaram por servir aos interesses colonialistas de dominação, demonização e mitificação de qualquer tipo de sociedade onde as mulheres pudessem ser independentes e guerreiras. Desde então, negou-se a presença de mulheres guerreiras na história, já que associadas ao universo mítico, como seres inconcebíveis. Enfim, essa é a ótica cristã e patriarcal, mas outras histórias existem nas tradições ameríndias e são essas que nos inspiram. 


BD: Ao mesmo tempo, é interessante notar o uso da visão dessa parte da história por uma nova perspectiva, diferente da usada pelo padre Gaspar de Carvajal. Como essa ideia de mudar a visão do colonizador para as guerreiras surgiu?

Hécate: Basta mudar de perspectiva histórica e considerar as sociedades indígenas como sujeitos legítimos de produção de conhecimento histórico também, pois a história ensinada em nossas escolas é a história do ponto de vista cristã, colonial e europeu que tende a apagar qualquer diversidade e especialmente o poder e liberdade das mulheres. Por longo tempo eu estudei o imaginário cristão/colonial sobre a América e vi suas relações com o poder, por isso venho me dedicando também ao estudo das concepções dos próprios indígenas, porque elas nos trazem outras perspectivas históricas, ou seja, “histórias do possível” daquilo que foi apagado e tido como mítico/impossível nas narrativas históricas cristãs. Nós precisamos libertar o nosso passado, para libertar também nossas identidades no presente! 


Hécate (foto: Patty Freitas)
BD: Sobre os aspectos técnicos de “Antípodas”, percebe-se que o trabalho de Caio Cortonesi em termos de produção, mixagem e masterização deu uma evoluída em relação ao que ouvimos em “Legados do Inframundo”. Ou seja, a sonoridade da banda está crua como o estilo que fazem, mas limpa e bem definida para as melodias e arranjos da banda fiquem evidentes. Como foi trabalhar com Caio mais uma vez? E até onde ele interferiu em algum aspecto junto a vocês?

Hécate: É sempre uma grande honra e satisfação trabalhar com o Caio, porque ele respeita e entende muito bem nossa proposta temática e musical. Além disso, ele vem evoluindo cada vez mais enquanto técnico de áudio e isso se reflete em nossos álbuns. Em vários momentos ele também participou (nas vozes, escolha de efeitos e timbres) e acrescentou algumas ideias ao álbum, mas sempre com enorme sintonia conosco, assim confiamos bastante em seu trabalho e somos muito gratos a ele por todo esse trabalho e dedicação ao MIASTHENIA.  


BD: Além disso, seguindo uma tendência que “Legados do Inframundo”já mostrava, “Antípodas” tem canções mais curtas e é o disco de vocês com menor duração. Isso é algo intencional, veio do amadurecimento da banda ou teria outra origem que não sabemos?

Hécate: É intencional, porque com o tempo vamos mesmo amadurecendo e avaliando o que já fizemos. A intenção não era quantidade, mas sim qualidade.


BD: Fugindo um pouquinho da atualidade, “XVI” e “Batalha Ritual” foram relançados em um duplo CD este ano. Qual é a sensação de verem os dois discos do MIASTHENIA relançados? Isso mostra o interesse dos fãs mais jovens na banda, concordam?

Hécate: Sim, com certeza. A sensação foi de orgulho, porque é parte da nossa história, e ver isso concretizado nesse relançamento é muito importante para nossa existência, nos fortalece.


BD: Ainda pegando o gancho do CD duplo, existe a possibilidade de “Antípodas” ter lançamento em outros países?

Hécate: Acho que sim, o “Legados do Inframundo” foi relançado na França pela Drakkar com as letras traduzidas para o inglês no encarte. Mas, por enquanto estamos satisfeitos com a repercussão da edição nacional do “Antípodas”, quem sabe aparece uma oportunidade também de relançamento fora do Brasil.


BD: Voltando à temática de “Antípodas”, se sente a força do lado feminino surgindo naturalmente, não só pela temática centrada nas Icamiabas. Como esta característica foi se delineando, surgindo e amadurecendo no disco?

Hécate: Realmente essa temática surge de um desejo de trazer à tona o que tanto me motiva enquanto mulher em uma banda de metal a escrever letras de resistência indígena ao cristianismo. Reflete minhas perspectivas feministas, pagãs e anti-coloniais no campo da História, da política e das relações de gênero. É fruto de uma série de leituras históricas em busca de exemplos de mulheres indígenas na América pré-colombiana e colonial que escapavam dos padrões prescritos para as mulheres pela cristandade. A princípio pensei em fazer uma letra para cada uma destas personagens, e dai fui juntando textos e fontes, mas com o tempo fui me aprofundando também nos estudos decoloniais/pós-coloniais e me surgiram muitas reflexões e inspirações na abordagem desse tema, então o álbum não ficou exclusivamente restrito às amazonas, porque outros personagens também aparecem, endossando um contexto muito maior de negação da diferença confrontada na América.

 
BD: Uma pergunta um pouco triste e chata, mas que precisa ser posta na mesa: Hécate, é de conhecimento de muitos que você é Ph.D. em História, e mesmo com o resgate da cultura pagã Pré-Colombiana que está cada vez mais intenso no Brasil, vemos momentos lamentáveis na atualidade: censura à exposições de artes, a queima de bonecos da Filósofa Judith Butler por setores ultraconservadores (e pasme: aos gritos de “queimem a Filósofa”), a luta contra os direitos individuais das mulheres, da comunidade LGBTQ, dos indígenas e outras, etnias, ou seja, o recrudescimento que beira o TFP dos anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964. O mais triste: ver muitos fãs de Metal se alinhando com esses valores. Qual a sua opinião, como música, professora, enfim, como pessoa culta diante de tanta sandice, de tanta intolerância?

Hécate: Eu me revolto também com tudo isso, porque reflete muita incoerência na cena Metal. Judith Butler para mim é uma grande referência na Filosofia, porque me baseio nas suas discussões sobre corpo e gênero em minhas pesquisas acadêmicas, o seu pensamento é subversivo e desconstrutivo e isso sim é o que me inspira a romper com tanto dogmatismo, fanatismo e ignorância em torno de ideias e concepções que tentam dominar o nosso ser e nossas relações sociais. O Metal deve libertar as pessoas, surgiu como forma de rebeldia e não deve ser usado como forma de opressão. Foi isso o que me atraiu para o Metal, mas hoje temos que lutar para manter essa significação. O MIASTHENIA sempre teve uma postura abertamente antinazista dentro do cenário Black Metal e isso, anos atrás, nos envolveu em muitas brigas e confusões, mas resistimos. Infelizmente o cenário do Metal está cada vez mais cheio de pessoas com ideias extremamente fundamentalistas e conservadoras: sexistas, homofóbicas e racistas. Boa parte destas pessoas não tem consciência do quanto seus valores em relação a essas questões se alinham com interesses de grupos, instituições e políticos cristãos que no fundo odeiam todos nós, só visam o poder e detestam a essência do Metal. Adoro a expressão “o Diabo é o pai do rock!”, então que fiquem longe dele aqueles que o temem!


Nygron (Foto: Ivanei)
BD: Vocês liberaram dois vídeos: um lyric vídeo para “Antípodas”, e um vídeo oficial para “Coniupuyaras”. Como estas canções foram escolhidas, e principalmente, como foi a produção e gravação de “Coniupuyaras”? E me permitam o elogio: o resultado final é fantástico!

Hécate: Obrigada. A escolha não foi aleatória, tudo foi pensado em termos de som e imagem e que era possível de se fazer, porque algumas músicas são mais cinematográficas que outras. A música “Coniupuyaras” teve sua letra pensada já em sintonia com as imagens. Foram meses idealizando o local, figurino e roteiro desse clipe, e ficamos muito satisfeitos com o resultado, o Caio fez excelente trabalho de roteiro, direção e edição, novamente ele captou muito bem nossa proposta. Gravamos o clipe aqui mesmo em Brasília, dentro de uma área de proteção ambiente há menos de dois km de nossa casa, em lugar fantástico para nossa proposta. Já o lyric vídeo de “Antípodas”foi escolhido e pensado também em termos de sua relação com imagens, a letra era perfeita para inclusão de antigos mapas e iconografias dos séculos XV e XVII que traduzem o imaginário cristão colonial sobre a América enquanto território selvagem, povoado por amazonas, canibais, cinocéfalos e iwaipanomas, dentro outros seres estranhos e aterradores.


BD: Voltando ao MIASTHENIA, e sobre shows? O show de 08/12 promete, mas existem possibilidades para outros estados, e mesmo fora do Brasil?

Hécate: Sim, não somos uma banda de longas turnês e muitos shows, porque temos nossas carreiras profissionais paralelas à banda. Mas na medida do possível, estamos planejando uma turnê e em breve teremos novidades para 2018.


BD: Bem, é isso. Agradeço demais pela entrevista, desejo todo sucesso do mundo à banda, e, por favor, deixe sua mensagem para o público.

Hécate: Eu agradeço pelo interesse e oportunidade de expor aqui um pouquinho de minhas concepções. Vida longa ao Metal Samsara! Para aqueles que ainda não conhecem nossa música, convido a navegar nos links logo abaixo. Em breve teremos disponível pela Mutilation a versão de “Antípodas”em LP (vinil). Força e honra sempre!


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E-mail: miasthenia.horda@gmail.com

Assista aos vídeos de “Coniupuyaras” e “Antípodas”.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

TERROR EMPIRE - Obscurity Rising (Álbum)


2017
Importado

Nota: 9,7/10,0 


Tracklist:

1. Obscurity Rising
2. You’ll Never See Us Coming
3. Burn the Flags
4. Times of War
5. Meaning in Darkness
6. Holy Greed
7. Lust
8. Death Wish
9. Feast of the Wretched
10. Soldiers of Nothing
11. New Dictators


Banda:


Ricardo Martins - Vocais
Rui Alexandre - Guitarras
Nuno Raimundo - Guitarras
Rui Puga - Baixo
João Dourado - Bateria


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Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


O que vem a ser o que chamamos de Thrash Metal moderno?

Embora as palavras variem de uma definição para a outra, podemos dizer que é o mesmo estilo que foi criado nos primeiros anos da década de 80, apenas com maior agressividade e timbragem sonora mais moderna (sem cair no Metalcore ou no New Metal). A sonoridade é rascante, bruta e cheia de energia, mas preservando a estruturação melodiosa. E um dos melhores representantes do estilo é o TERROR EMPIRE, de Coimbra (Portugal), que após o EP “Face the Terror” de 2012 e o álbum “The Empire Strikes Black” de 2015, retorna à carga destilando violência em forma de música com “Obscurity Rising”.

Se o Thrash Metal se caracteriza por sua agressividade escopada pela melodia, se preparem, pois o quinteto não está para brincadeiras. Ainda mais agressivo e brutal que antes, incorporando toques de Death Metal em alguns pontos, eles voltaram com ainda mais sede de sangue que antes. Mais bem trabalhado, mais técnico e doentio de uma forma bem feita, se preparem, pois eles mostram um arsenal musical de primeira, com riffs bem trabalhados e cheios de energia, base rítmica com muito peso e técnica, e vocais que usam uma boa diversidade de timbres. Está sólido como uma rocha, mas sempre muito bem feito, e com uma energia empolgante dos diabos, sem sombra de dúvidas!

A monstruosidade já começa na produção. O baterista João Dourado acompanhou a gravação, produziu e masterizou o disco, tudo feito no Golden Jack Studios, em Coimbra. E o nível de clareza é bem alto, pois se entende tudo que o quinteto está tocando, os timbres foram escolhidos para soarem agressivos e claros, mas se preparem, pois com essa sonoridade seca e de alto nível, é garantia que vem uma tempestade Thrasher de causar dores de pescoço.

A arte da capa é de André Coelho. Para quem não sabe, é o artista que criou a capa de “Black Force Domain”, do KRISIUN, fora outros trabalhos. E na simplicidade, criou algo que fica explicita o que se ouve no disco.

E se preparem, pois o TERROR EMPIRE veio disposto a mostrar que tem tudo para ser um dos nomes mais relevantes do Thrash Metal!

10 hinos à violência nos espera, todos excelentes. Mas a vertigem causada pela velocidade e brutalidade de “You’ll Never See Us Coming” e suas passagens cheias de elementos de elementos extremos (com destaque para o ataque de riffs e solos de guitarras), o assalto explosivo e bem trabalhado de “Burn the Flags” (que vocais de primeira em meio ao caos destrutivo da banda), a cadência opressiva de “Times of War” (como baixo e bateria mostram boa técnica e pegada de peso nessa canção), a complexidade de alguns momentos em “Holy Greed”, as partes ríspidas e extremas de “Lust”, o hino ao slamdancing em “Death Wish”, e a porradaria desenfreada de “New Dictators”, que tem solo de guitarra do convidado especial Gus Drax (do SUICIDAL ANGELS). Mas não deixem de ouvir as outras canções, pois todas são puro esmaga-tímpanos!

Não tem jeito: Portugal está se tornando cada vez mais um verdadeiro criadouro de bandas de alto nível. E o TERROR EMPIRE já pertence ao primeiro time, só precisam ouvir e entenderão o que eu digo.

GRIMLET - Theia: Aesthetics of a Lie (Álbum)


2017
Importado

Nota: 8,5/10,0

Tracklist:

1. El Gran Dark Maestrum
2. Scorching Vision
3. Aesthetics of a Lie
4. 2:1:0
5. Still Beneath the Horns
6. Knee-Deep in the Dead (Covariance Version)


Banda:


David Carvalho - Vocais
António Branco - Guitarras
Flávio Almeida - Guitarras
Cláudio Aveiro - Baixo
Filipe Gomes - Bateria


Contatos:

Site Oficial: http://grimlet.com/
Twitter:
Instagram:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Portugal é um país com uma cultura forte, e vemos os fortes traços disso basicamente na literatura (não há como não conhecer o nome do poeta Fernando Pessoa). Não é sem motivos que boa parte das bandas de Metal do país se recusa a cair no ponto comum, a serem meras cópias do que já foi feito até a erosão. Não, por lá, se cultiva a criatividade, se dá passos à frente. E isso é perceptível no trabalho do GRIMLET, quinteto de Figueira da Foz, que chega com seu terceiro álbum, “Theia: Aesthetics of a Lie”.

A banda faz um gênero bem agressivo e ríspido de Progressive Death Metal, ou seja, a boa e velha agressividade do gênero está bem trabalhada, com um trabalho de primeira das guitarras (de onde algumas melodias fluem, especialmente nos solos), uma base rítmica coesa e pesada (mas com ótimas passagens quebradas, mostrando a técnica de baixo e bateria), e vocais que fazem um estilo de gutural não muito usual (os timbres são graves, mas se consegue entender bem o que está sendo cantado). É bem diferente do usual, e sempre cheio de energia e peso.

Em termos de sonoridade , pode-se dizer que “Theia: Aesthetics of a Lie” tem um diferencial de outros discos do estilo: a sonoridade é mais seca, deixando os instrumentos mais claros e audíveis separadamente. Ou seja, aquela crueza tão comum nos discos de Death Metal não surge da qualidade de gravação, mas dos timbres instrumentais, o que deixa tudo soando muito bem aos ouvidos. Nisso, o trabalho de João Dourado na mixagem deu um “boost” e tanto.

Em termos de arte gráfica, a capa de David Carvalho, trabalhada com sombras de preto, branco e cinzento. Desta maneira, a apresentação visual soturna e com aquela atmosfera densa e fúnebre. Algo essencial para uma banda de Death Metal.

Preferindo músicas mais longas, o quinteto mostra que tem uma proposta sonora bem pessoal, pois com durações desta forma, eles conseguem exibir boas mudanças rítmicas e uma técnica nada convencional. “Scorching Vision” tem um enfoque mais extremo, onde o lado mais bruto e explosivo da banda é mais evidente (com solos de guitarras à lá NOCTURNUSe riffs ganchudos), ao passo que o lado mais progressivo da identidade do quinteto aparece mais em “Aesthetics of a Lie” (onde baixo e bateria mostram ótima técnica e peso nas mudanças de tempos). Em “2:1:0” e “Still Beneath the Horns” (esta com belas passagens mais cadenciadas e empolgantes), o equilíbrio entre técnica, melodia e agressividade fica muito exposto, com muitas variações de andamento, boas melodias e harmonias, e  os vocais estão muito bem em ambas. E a curta “Knee-Deep in the Dead (Covariance Version)” é bem mais chegada ao porradeiro explícito e direto, um murro de velocidade e brutalidade no estômago, onde a banda está justinha.

O GRIMLET merece chegar a um público maior, pois tem muito potencial musical.

Ponho fé.

DESTROYERS OF ALL - Bleak Fragments (Álbum)


2016
Importado

Nota: 10,0/10,0

Tracklist:

1. From Ashes Reborn
2. Hollow Words
3. Hate Through Violence
4. Bleak Fragments
5. Death Healer
6. Unexistence
7. The Pain That Feeds
8. Speed of Mind
9. Tormento
10. Day of Reckoning


Banda:


João Mateus - Vocais
Alexandre Correia - Guitarras
Guilherme Busato - Guitarras
Bruno Silva - Baixo
Filipe Gomes - Bateria


Contatos:

Instagram:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Já não é novidade para quem quer que seja que a cena portuguesa de Metal vai além do MOONSPELL. Nomes como TERROR EMPIRE, SCAR FOR A LIFE e outros já mostraram que Portugal tem todo potencial para ser um criadouro de bandas do primeiro time. E como é bom podermos falar, apesar do atraso, do primeiro álbum do DESTROYERS OF ALL, quinteto de Coimbra que vem arrasando em “Bleak Fragments”. Se o EP “Into the Fire” já prometia, preparem seus pescoços, pois o caldo engrossou e a PORRA FICOU SÉRIA!!!!

Misturando Thrash Metal com Groove e elementos progressivos, mais toques diferenciados de Death Metal, melodias de Metal tradicional, linhas melodiosas complexas, e mais algumas coisas de estilos regionais (como as passagens de Fado em alguns pontos de “Tormento”). Bastante técnico, com muitos ritmos quebrados, ótimas melodias, uma dupla de guitarras que esbanja riffs e solos de primeira, uma técnica fantástica de baixo e bateria, e vocais que sabem usar uma ótima diversidade de timbres. Sim, é diferente, é novo, é o DESTROYERS OF ALL! E que energia abusiva, não deixa a cabeça parar de balançar!

O baterista do TERROR EMPIRE, João Dourado, é quem fez a mixagem e a masterização de “Bleak Fragments”. E digamos de passagem que ele criou uma sonoridade limpa e seca, mas moderna e agressiva, que se encaixa perfeitamente no quebra-cabeça que é a música do quinteto. Tudo claro, audível, mas com timbres bem escolhidos que transformam a audição do disco em um apocalipse de prazer.

A arte de Silencer8para a capa é muito bonita, bem feita, embora usando uma palheta de cores mais simples. Mas se enquadra perfeitamente na música do quinteto, e vai ambientando o ouvinte.

Para ouvir “Bleak Fragments”, é necessário que o fã esteja preparado para um disco que vai desafiá-lo em cada momento. A digestão não é simples, pois o DESTROYERS OF ALL não é uma banda simples. Mas lhes garanto: ouviu, gostou, é amor por toda uma vida.

É bem difícil destacar esta ou aquela canção, porque eles capricharam muito nos arranjos e na dinâmica de cada canção. Mas o Thrash ganchudo e bem trabalhado de “Hollow Words” e suas passagens mais técnicas (especialmente de baixo e bateria), o peso abrasivo e cheio de feeling de “Hate Through Violence” (muitos momentos jazzísticos aqui e ali, e ampla influência da escola sueca do Thrash Metal moderno, e que vocais), o trampo “thrashissívo” de “Bleak Fragments” e suas ótimas guitarras (esses caras tocam demais), a porrada grooveada de “Death Healer” (cheia de variações e ótimos backing vocals)... Ah, a quem vou enganar?

“Unexistence”, “The Pain That Feeds”, “Speed of Mind”, “Tormento” e seu Fado logo no início, e “Day of Reckoning” não ficam devendo nada as outras, mas estão no mesmo nível delas. É IMPOSSÍVEL destacar uma ou outra faixa em “Bleak Fragments”, pois a banda é inspirada, faz algo inovador e cheio de vida. É algo raríssimo nos dias de hoje, mas eles têm personalidade e sonoridade bem próprias.

Ouçam, comprem, viajem até Portugal e descolem suas cópias de “Bleak Fragments”. Com o apoio certo, o DESTROYERS OF ALL é um dos próximos grandes nomes de Portugal, se não for do mundo!

Duvida? Ouça com sinceridade, e comprovarão o que eu digo!

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CENTRATE - Ritual (Álbum)


2017
Nacional

Nota: 9,5/10,0

Tracklist:

1. Doom
2. Voodoo
3. In the Face of Death
4. Forever Mine
5. Soul Collector
6. Old Man’s Table
7. Infected
8. Kill till Death
9. Revenge
10. Ritual
11. Exorcism  


Banda:


Niklas Keul - Vocais, guitarras
Tobias Diehl - Guitarras
Chris Wömpner - Guitarras
Marcel Dippel - Baixo
Manuel Ernst - Bateria


Contatos:

Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


O Thrash Metal anda cada vez mais evidente dentro do cenário Metal mundial. O mais interessante é notar que, junto com o formato Old School, temos bandas que buscam algo mais moderno, mas sem que a pegada cheia de energia do estilo seja perdida. E “Ritual”, primeiro álbum do quinteto alemão CENTRATEé uma grata surpresa do lado mais atual do gênero.

Thrash Metal ganchudo e agressivo é o que eles oferecem, com certa influência da escola germânica, só que com um toque especial de melodias bem feitas vindo diretamente da escola americana. Além disso, a banda funciona como um todo, sem que haja destaques entre os instrumentistas, mostrando a solidez do quinteto. E se preparem, pois é um coice de mula nos cornos de quebrar os dentes, mas sempre com uma energia jovial e atualizada, mesmo nos momentos em que pegam alguns elementos do Death Metal emprestados (como se pode ouvir em momentos de “Soul Collector”).

A produção, mixagem e masterização de Thilo Krieger deram corpo e agressividade sonora a banda de uma forma moderna e limpa. Você consegue entender o que a banda está tocando perfeitamente, bons timbres foram escolhidos para cada instrumento, ou seja, o disco soa claro. Mas cuidado: mesmo translúcido sonoramente, a agressividade do quinteto é algo a ser levado em consideração, pois soam brutos como um mamute dentro de uma loja de cristais.

Graficamente, a arte de “Ritual”ficou ótima nesse formato Digipack, com uma capa sinistra criada por Felix Bäcker, além de um layout perfeito, usando interessantes matizes de preto, branco e vermelho.

Sonoramente, poderíamos dizer que se percebe alguma influência dos primeiros trabalhos do THE HAUNTED em alguns momentos, mas a banda mostra muita personalidade. E o talento deles se percebe em canções ótimas como a seca e ritmicamente diversificada “Voodoo” (reparem bem o trabalho interessante de baixo e bateria nas variações de tempo), a curta e grossa “In the Face of Death” com seu jeitão moderno e rasgado que chega a esbarra no Death Metal, e os mesmos elementos mais agressivos surgem na abrasiva “Soul Collector” e seu ataque maciço de riffs bem feitos e solos bem caprichados, a envolvente e empolgante “Old Man’s Table” e seus vocais rasgados em timbres normais que se encaixam como uma luva na base instrumental trabalhada do grupo, o murro seco e abrasivo dos tempos mais lentos de “Infected”, a cadência azeda e grudenta de “Kill till Death” e seus arranjos de guitarras muito bons, os pontos em que o grupo sabe usar toques mais experimentais em “Ritual”, e os ritmos quebrados de “Exorcism”(outro show de baixo e bateria).

Sim, o CENTRATE é uma banda ótima e promissora, e se já chegaram nesse nível em “Ritual”, pode ser que se tornem um pilar do Thrash Metal moderno nos anos vindouros. Talento para isso, eles têm.

Escuridão Sul-Americana que assombra o Metal – Entrevista com o MORCROF



Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Se você conhece bem o cenário do Metal extremo nacional, o nome do MORCROF não lhe soará estranho. Um dos pioneiros da SWOBM (Second Wave of Black Metal) no Brasil, desde 1992 estão nessa luta. E apesar de tantos anos, com várias Demos, EPs, Singles, discos ao vivo e outros, o grupo possui apenas um álbum, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)”. Mas em breve, o novo álbum estará disponível.

Aproveitando que a banda vive um bom momento após o lançamento do ao vivo “Live At the Brazilian Swamp” e se prepara para lançar mais um álbum, lá fomos nós ter uma conversa e saber sobre passado, presente e futuro deles, bem como conhecer um pouco mais dos planos para o ano que vem.


BD: Saudações. Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevista-los. Como primeiro ponto, que tal nos contar um pouco da história da banda, desde 1992 até hoje?

Paullus: Big Daddy, nós que agradecemos pela oportunidade que nos oferece para falar um pouco sobre a MORCROF!

A banda já era um projeto em mente de Caecus Magice, nosso primeiro guitarrista, que tentava na época recrutar membros que pudessem fechar uma formação. Casualmente nos encontramos e ele me chamou para formatarmos a banda, a princípio, tendo como referência sonora as principais bandas de Death e Grind vigentes da época. Sentamos a primeira vez para compor em dezembro daquele mesmo ano, ponto de partida em que considero o início das atividades. Em 1993 fechamos o ano com a formação completa, 10 sons compostos que foram divulgados na reh 1994 “A Future Not So Far” e shows realizados. Logo após o lançamento da reh, Caecus Magice e Feralis saíram para formar a Eris Mestus, e seguimos com Beah Gênes Hajj-Ahriman e R’Matheus (com passagem meteórica) substituído por Pétros Nilo em 1995. Em 1996 lançamos a DT “Scientia Ab Mortuus” e fizemos alguns shows para promovê-la. Até 1998, compomos mais algumas músicas que foram gravadas na DT 1999, “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae” e na DT 2001 “Alesh”, estas registradas já com outras formações. Essas Demos tiveram boa repercussão e nos abriu caminho para lançarmos a compilação 2002 “Apeiron (Trinitas Primitiae Opus)” e o full length “Machshevet Habriá (Myths And Conjectures Of Creation)” em 2005. Fizemos bastantes shows no período em que culminou na abertura do Rotting Christ em sua segunda passagem pelo Brasil em 2006 e que resultou no DVD “Animo Signus Aeterno”. Os anos seguintes foram de altos e baixos: falta de grana, de estrutura, obrigações pessoais e o velho problema na formação nos acompanhou até 2011, quando fechamos um novo lineup que nos impulsionou a composições de novos sons que sairão no próximo álbum. Uma prévia disso pode ser conferido no Single 2015 “codex.gnosis.apokryphu.:.portae.es.solis.sursum.aquilonem”e no álbum “Live At The Brazilian Swamp”, gravado no memorável show de abertura do Varathronem 2015.  Hoje, estamos estabilizados com Eziel Kantele-Väinö, o insano; Bruno Brahms Kermanns; R’Bressan; Cleber Borges; Paullus Mourae R’Herton.


BD: Nesses 25 anos de vida do MORCROF, vemos que a discografia da banda é bem grande, com vários EPs, Demos, Singles e outros, mas apenas um álbum, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)”. Por que só um Full? Aliás, dava para vocês fazerem mais uma compilação, pois material não falta.

Paullus: Depois de 2006, voltamos a ter problemas na formação e um acúmulo de problemas na esfera pessoal... Caminhamos muito pouco desde então! Não tivemos tempo para sentarmos e compormos de modo mais incisivo e desanimamos um pouco com a dificuldade em encontrarmos novos integrantes. A coisa começou a mudar a partir de 2011 com a entrada de R’Herton na bateria e de Agnaldo Dead Poet nos vocais, só a partir de então, com ensaios regulares, pudemos colocar as novas composições em dia, iniciarmos novas gravações e retornarmos aos palcos. Sobre fazermos uma compilação com alguns outros materiais, nós nunca pensamos nessa possibilidade. (Nota do entrevistador: selos que lerem esta entrevista, hora de apostar na banda!)


BD: Mesmo sendo de 12 anos atrás, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)” deu a vocês a projeção que pretendiam? Ele chegou a abrir portas?

Paullus: Acho que sim. Esse álbum reverberou bem no Brasil e no exterior e ainda hoje muitos headbangers nos contatam à procura de “Machshevet Habriá...”! As portas se abriram, mas não tivemos condições, eficiência ou competência para aproveitarmos aquele bom momento...


BD: Mais uma sobre o passado: olhando pela internet, percebe-se que a formação da banda sempre sofre alterações. A que atribuem esse fato? Às dificuldades de se fazer Metal no Brasil, um pouco de responsabilidade dos ex-membros, uma combinação de ambos ou outros fatores?

Paullus: Foi uma combinação de diversos fatores com certeza; de tudo que você possa imaginar... Imaturidade, inexperiência, desinteresse e saída de membros, mulher, filhos, trampo, estudo, grana, enfim... Por incrível que pareça, as “dificuldades de fazer Metal no Brasil” nem cogitamos pois é uma realidade intrínseca.


BD: Recentemente, vocês lançaram o ao vivo “Live At the Brazilian Swamp”, que foi gravado no show de abertura do Varathron em SP. Qual a sensação de tocar com uma banda que, de certa forma, é uma influência para o MORCROF? E qual a intenção de lançar o ao vivo?

Paullus: A sensação? Foi como trepar com uma gostosa e gozar litros nela várias vezes sem tirar de dentro! Sobre o live, a intenção é mostrar que, uma coisa é se gravar músicas em estúdio com milhões de recursos técnicos que hoje temos em mãos, tudo sai lindo, nítido, perfeito, como a banda quer que soe; e outra coisa é executar os mesmos sons ao vivo organicamente, com improvisos, adrenalina, público urrando, crueza... são versões oferecidas de uma mesma música, a cada vez que tocamos ao vivo torna-se inédito pois tudo pode acontecer. Penso que registros “lives” não serve para comparar com trabalhos de estúdio – com o Single por exemplo, mas imergir na essência que a banda mostra on stage...


BD: Ainda sobre “Live At the Brazilian Swamp”, como tem sido a recepção dele por parte do público e da crítica especializada em Metal?

Paullus: Por incrível que pareça, quem escutou “Live At the Brazilian Swamp” entendeu a proposta... Claro, vamos lá: são áudios masterizados tirado de uma filmadora frontal ao palco e que captou tudo quanto foi ruído em sua volta, longe da perfeição... Mas tem a essência daquela noite e é isso que queríamos passar! Encaramos bem qualquer crítica, tomando cuidado tanto com as negativas quanto com as positivas...


BD: O último Single da banda, “Codex Gnosis Apokryphv: Porta Ex Solis Svrsvm Aqvilonem”, precedeu o ao vivo em dois anos. Mas em termos de projeção, podemos dizer que ele atingiu o objetivo, ou seja, mostrar não só que o MORCROF está vivo, mas chegar até novos fãs?

Paullus: O Single está cumprindo com esse objetivo, causando boa impressão e surpresa aos velhos irmãos que nos acompanham desde o início, sobretudo pela inserção dos vocais limpos, quanto sendo bem aderido também aqueles que ainda não conheciam a banda. E, como bem mencionado na pergunta e parafraseando Steve McQueen em “Papillon”, precisávamos lançar algo que dissesse: “Hey, ainda estamos vivos, desgraçados!”


BD: Hora de falar do futuro: a banda parece estar preparando mais um álbum para breve, certo? Se sim, o que poderiam nos adiantar em termos de informação (nome, tracklist, etc)? E há uma previsão para o lançamento dele?

Paullus: Sim, estamos na reta final da produção do novo álbum, que trará o título “.:.codex.gnosis.apokryphu.:.arcano.verba.revelatio.:.”e apresentarão, dito em primeira mão, as faixas: “invocatio spiritus antiquis”; “in monolitus ex auorum spiritus mundus”; “preconceptual genesis circularis elementarum existentiam”;  “preludium.:. apretit portae”; “portae ex solis sursum aquilonem”; “existentia imperfecta es”; “ad infernum exilio meam”; “gratiam aeon sapientia mundi”. O álbum trará algo que sempre quisemos fazer: cantar em latim na íntegra. Embora estejamos próximo da conclusão dos áudios, infelizmente ainda não temos a previsão exata do lançamento...


BD: Aliás, em termos líricos, algo mudou dos tempos da Demo “A Future Not So Far” até hoje? E quais são os temas centrais das letras? Alguma mensagem aos fãs?

Paullus: Houve um evidente amadurecimento de ideias, mas o cerne continua sendo o mesmo: o existencialismo humano. Questionamento sobre vida, morte, existência, sempre fez parte de nossas conversas e as letras justificaram esses pensamentos seja em “its explanation is your god” de 1993 ou em “existentia imperfecta es”escrita em 2008.


BD: Vocês são de uma geração que viu surgir no Brasil nomes como MIASTHENIA, SONGE D’ENFER, OCULTAN, MALKUTH, entre tantos outros nomes que são pináculos do Black Metal brasileiro. Olhando hoje para o passado, existe aquela impressão de que poderiam ter feito algo diferente do que fizeram? Existem arrependimentos?

Paullus: Não existem arrependimentos... Mesmo! Fizemos o melhor que achávamos dentro do contexto que vivíamos a cada época. Seria fácil hoje com mais de 40 anos olhar para traz e pensar que poderíamos ter feito algo diferente quando na verdade não, justamente porque não possuíamos a vivência e experiência que temos hoje.


BD: O Metal nacional vive um momento de cisão: de um lado, vemos a censura de exposições de arte, pessoas queimando bonecos de filósofos aos gritos de “queimem a bruxa”, e muitos bangers se alinhavam com esse cenário ultraconservador, inclusive dando suporte ideológico a deputados da dita bancada evangélica. Como vocês enxergam essas situações? Não dá um pouco de nostalgia em relação à época em que mandávamos políticos se foderem e éramos apegados uns aos outros fraternalmente?

Paullus: Vou tentar ser muito claro nesta questão, não somente porque ela traz polêmicas, mas também porque dentro da banda temos visões distintas sobre ideologias políticas que ora nos aproxima, ora nos distancia entre argumentos e justificativas. Então, o que vou expor aqui é algo meramente pessoal e não uma posição da banda como ferramenta artística e pontual.

Antes de tudo, admiro pessoas que procuram se posicionar, errado ou certo sob determinada perspectiva, o importante é se posicionar; em segundo, as pessoas devem ter o peito aberto para debater as diferenças não como um objeto concretado, mas de possibilidades, no exercício de empatia, sabendo ouvir e entender, sabendo falar e ser compreendido. Ainda não chegamos nesse nível. O brasileiro, antes alheio as questões ideológicas política em sua maioria, e aqui me refiro aos anos 80 e 90, hoje conversam sobre decisões do STF ou das leis que estão sendo encaminhadas no Congresso e no Senado... ou no seu Estado ou município. Esta é a impressão positiva que tenho, mas que se desdobra em equívocos, pois não está muito claro a muitos de nós as conexões ou relações que transitam de um extremo ao outro.

Precisamos pesar as consequências daquilo que anunciamos como “sociedade perfeita” sem que isso seja um tiro no pé, sem que nivelemos as situações por baixo e de modo superficial... Isso é nada fácil! Devemos enfrentar a situação com a política que fazemos no dia a dia e, portanto, tomar conhecimento do homem como ser social. Precisamos limpar essa água turva que impede enxergarmos com clareza alguns conceitos... Sei lá, vou usar uma afirmação turvada recente: “nazismo é de esquerda”... Estão confundindo regimes totalitários com o germe dessas ideologias... Misturando conservadores e progressistas com moderados numa discussão convergente entre extrema-esquerda e extrema direita... Nesse sentido, tá tudo uma bosta porque o posicionamento político citado no início desta resposta passa a ser um engodo à própria pessoa que profere suas ideias, a análise é rasa e, influenciados pelos extremos ideológicos, acabam por se satisfazer com uma retórica banal de qualquer político e, pior ainda, o adotam como se fosse seu animal de estimação...

Outro dia li uma matéria que trazia na manchete: “Metal sempre foi conservador”... Claro, pra mim uma boa provocação... Metal nunca foi conservador, tá na sua genética, o que acontece são jovens “libertários” dos anos 80 se vendo hoje entregues ao sistema, não estou condenando, só constatando. Hoje em dia o Metal está se ratificando como uma arte meramente estética e corrompida pela indústria cultural, aceitável, maleável com tudo aquilo de que foi adepto na origem: Sublevado, rebelde, transgressor, libertário, contestador, repulsivo. O “headbanger” que lutava por liberdade outrora passou a almejar o status em que alcançou e, dentro desta perspectiva, ele tem suas razões. Bom... é um tema muito amplo... difícil pontuar tudo que leva ao que estamos vivendo no momento. O que sei é de minha posição: Libertário e progressista. Libertário porque nenhum homem ou instituição tem valor moral para subjugar e explorar outro homem (mas fazemos porque somos hipocrisias!)... E progressista porque precisamos abrir a mente para entender as novas demandas de valores que a sociedade necessita.


BD: E em termos de shows, como as coisas estão? Existem propostas para alguns shows fora de SP, e mesmo para os outros países da América do Sul?

Paullus: Com a entrada do Bruno e do Cleber, tivemos que ganhar um fôlego para que a atual formação ensaiasse os sons que serão apresentados ao vivo. Fizemos um show “piloto” em 15 de outubro que nos serviu experiência... E temos mais 2 festivais este ano. Para 2018, ainda vamos nos reunir para organizar como serão os ensaios, suas proposições, shows, composição... Novamente, com 6 integrantes, tentaremos equacionar os dias e horários que seja bom para todos e, feito isso, elaborar a agenda. Não há nenhuma proposta até o momento para show no ano que vem...


BD: É isso. Mais uma vez, agradeço demais pela entrevista, e por favor, deixem sua mensagem aos seus fãs e leitores do Metal Samsara.

Paullus: Nós que agradecemos, mais uma vez, por todo seu suporte, dedicação e atitude por manter um importante veículo de informação underground como o Metal Samsara. Nossos eternos agradecimentos a você e a todos que se interessaram em ler esta entrevista e conhecer um pouco mais sobre a MORCROF.

Ouça o disco ao vivo “Live At The Brazilian Swamp”.


SOMBERLAND - Pest'Ology (Álbum)


2017
Nacional

Nota: 8,7/10,0

Tracklist:

1. Pest’Ology
2. Here Has No Place for God
3. Fallen Angel
4. Forever Dark Wood
5. Dark Silence of Death
6. Wrath of the Tyrant
7. Into the Frost
8. Sadistic Instincts Arise
9. …When Future No Matter


Banda:


E. Nargoth - Baixo, vocais
Dmortest - Guitarras
Diavolos - Guitarras
W.A.G - Bateria


Contatos:

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Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Existem bandas cujos trabalhos, em qualquer vertente de Metal que seja, parecem destinados a serem realmente incríveis. No Brasil, bandas e mais bandas geram discos que realmente nos seduzem pelos ouvidos, já que cada vez mais em termos musicais, as bandas andam criando música da mais alta qualidade. E o primeiro disco do quarteto SOMBERLAND, de Criciúma (SC), chamado “Pest’Ology”, é um desses.

O grupo faz um Black Metal cru e bem tradicional, adicionando algumas melodias muito interessantes em vários pontos, e mesmo alguns momentos mais técnicos podem ser notados no trabalho deles. O que fica evidente é que eles possuem uma clara influência de bandas como DISSECTION e EMPEROR, com uma dose seminal de energia envolvente e sedutora, além de boas ambientações.

Orland Junior e a própria banda foram os responsáveis pela produção sonora de “Pest’Ology”, sendo que Orland ainda mixou e masterizou o trabalho no Forest Studio, em Criciúma (SC). Tudo para garantir uma qualidade sonora bem cuidada e com bom nível de clareza, mas sem deixar de lado aquela crueza essencial para bandas do gênero. Ou seja, a música soa agressiva, crua e tenebrosa, mas limpa e clara para a compreensão de quem ouve o disco.

A bela arte de Marcelo Vasco (da PR2 Design) para a capa evoca claramente a Peste Negra que devastou a Europa e a Ásia entre 1343 a 1353, deixando um saldo de 75 a 300 milhões de mortos. O design e o layout de L. Vulcan ficaram muito bons, dando aquele toque sinistro essencial ao lado visual.

Desfilando música de muito potencial em “Pest’Ology”, o SOMBERLANDsabe compor de forma espontânea, bem acabada. Fica evidente o quanto o quarteto tem a oferecer em canções como a variada “Pest’Ology”e sua diversidade crua de riffs agressivos e vocais rasgados de primeira, a energia agressiva que surge em “Here Has No Place for God” e suas passagens com melodias sombrias (onde as guitarras se destacam), a sinistra e arrastada “Fallen Angel” (com seus detalhes soturnos, ótimos vocais e boas conduções na base rítmica), o peso empolgante e também cadenciado de “Dark Silence of Death” (com vocais rasgados ótimos) e de “Wrath of the Tyrant” (partes de duetos melodiosos de guitarra ótimos), e as climáticas e fúnebres “Sadistic Instincts Arise” e “…When Future No Matter” (esta última, com alguns solos de guitarra muito bem encaixados e melodiosos).

O SOMBERLAND é uma banda excelente, e só precisa ser descoberta pelos fãs do estilo. Mas garanto: uma ouvida em “Pest’Ology”e não vão se arrepender.