segunda-feira, 20 de novembro de 2017

ARMUM (Death Metal - Goiânia/GO)


Início de atividades: 2011
Discos lançados: EP “Infernal Domain”
Formação atual: Camila Andrade (baixo, vocais), Gesiel Coelho (bateria), Guilherme Aguiar (guitarras)
Cidade/Estado: Goiânia- GO


BD: Como a banda começou? O que os incentivou a formarem uma banda?

Camila: A banda teve início em 2011 com o Gesiel, que tinha imensa vontade de ter um projeto voltado para o Death Metal, na época ele era guitarrista, e começou também nos vocais da banda e me convidou para tocar baixo, daí partimos a procura de baterista para fechar a formação como um power trio. O maior incentivo penso que seja gostar muito de Death Metal!!


BD: Falem um pouco sobre o atual EP. Como foi feito a parte de composição, gravação e como foi lançamento?

Camila: As composições das músicas no geral são feitas pelo Geisel, e em estúdio de ensaio são finalizadas e lapidadas com a banda toda. O EP “Infernal Domain”foi gravado ao vivo aqui em Goiânia mesmo, a banda já estava caminhando para quase 5 anos de formação, surgiu uma mini turnê para fazer no Sul do país e como não tinha nenhum material físico optamos pelo EP ao vivo, algo mais rápido. Foi lançado no final de 2016 e agora em 2017, depois da parceria com a Sangue Frio Produções, já está disponível nas plataformas digitais.


BD: Quais as maiores dificuldades que estão enfrentando no cenário?

Camila:Costumamos dizer que para nós a maior dificuldade está nas constantes mudanças de formação, encontrar dentro do nosso cenário pessoas que encarem a banda e a estrada com a mesma visão proposta desde o início que é tocar por todo o país e fora também. E depois o lado financeiro já que todos nós temos que trabalhar, não podemos viver exclusivamente para a banda e tudo que envolve ensaio, equipamento, gravação, viagens tem custos, muito altos por sinal, tanto para bandas como para produtores.


BD: Como estão as condições em sua cidade em termos de Metal/Rock? Conseguem tocar com regularidade? A estrutura é boa?

Camila: Em Goiânia acontece um ou dois grandes eventos no ano que consideram de ótima estrutura, alguns deles já tivemos a honra de tocar abrindo para bandas como KRISIUN, KORZUS, VIOLATOR, e outras, os demais eventos são feitos em pubs e estúdios, uns com bons equipamentos outros nem tanto, mas a galera comparece e as bandas se viram como podem para fazer a coisa acontecer. Tocamos sim bastante em Goiânia, até duas vezes por mês geralmente. 


BD: Hoje em dia, muitos gostam de declarar o fim do Metal, já que grandes nomes estão partindo, e outros parando. Mas e vocês, que são uma banda, como encaram esse tipo de comentário?

Camila: Com certeza o Metal é imortal não vai desaparecer. Os mestres se vão, mas deixam seu legado, suas histórias que inspiram quem está chegando na cena e quem já faz parte dela. Se depender de nós, estamos ai na correria fazendo o possível para isso não acontecer.


BD: Em termos de Brasil, o que ainda falta para o cenário dar certo? Qual sua opinião?

Camila: Na minha humilde opinião (risos) o que tenho visto é que está faltando o reconhecimento e valorização da própria galera brasileira ao que tem aqui no nosso país, temos excelentes músicos, excelentes bandas, materiais de qualidade que nem dá para acompanhar. Muitos headbangers têm bagagem e história para compartilhar e acrescentar, mas infelizmente no meio há uma minoria de “dinossauros” do Metal que por que viveram em uma época de difícil acesso aos materiais, que enviavam cartas, gravavam fitas uns para os outros e tal, dizem ter vivido o metal verdadeiro e não valorizam a cena atual. Cada época tem suas características estamos na época de compartilhar, curtir, tudo é acessível, a nossa fase é agora então vamos dar o máximo agora. E que os donos de estúdios e pubs com equipamentos foda, por favor abram espaço para o metal extremo também.


BD: Fale um pouco do recente videoclipe lançado. Como foi trabalhar nele e produzi-lo?

Camila: O vídeo mais recente da faixa “Battle of Armageddon” foi proposto para lançar a nova formação com o Guilherme na guitarra, que tem somado muito para banda já que a parte de produção de áudio e vídeo foi feita por ele. Fizemos tudo de forma bem tranquila coletando as imagens no estúdio de ensaio e o áudio pela Blastbeat Records que é de produção do Guilherme.


BD: Quais são os projetos futuros da banda?

Camila: Tocar sem parar, pegar a estrada, fazer novas parcerias, conhecer galera nova fazer amizades em diferentes regiões do Brasil. E não deixando de lado a produção de um disco de qualidade agora para 2018, com esse material pronto faremos divulgação mini-turnê pelos países latinos e quem sabe Europa!


BD: Deixem sua mensagem final para os leitores.

Camila: Muito obrigada a vocês do Metal Samsara por mais uma oportunidade de estar disseminando nosso trabalho, fortalecendo o Death Metal, uma hora participar dessa entrevista, para a galera aqui, curtam a página do ARMUM, nos procurem nas redes sociais para trocar ideias, para fazer convite para shows!! Valeu até a próxima...


Links para contatos:



Links para audição:


AmazonMusic: http://amzn.to/2vSu5Km 

Veja o vídeo para “Battle of Armageddon” 

domingo, 19 de novembro de 2017

O Levante do Metal Nativo - Recuperação da Alma Mater brasileira


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Desde cedo, o ouvinte de Metal está acostumado a ver/ouvir elementos das culturas europeias. Algo óbvio, uma vez que, em termos de quantidades de discos relevantes lançados, a Europa suplanta atualmente os EUA.

Vikings, celtas, paganismo/mitologia, literatura... Quase sempre temos nomes como IRON MAIDEN, BATHORY em sua “fase viking”, AMON AMARTH, entre tantos outros, evocando a cultura dos povos antigos de seu continente de origem, ou então, aproveitando de elementos históricos ou mesmo da literatura de seus países e autores.

E o Brasil?

Encarte de  “Arise”. Reparem nas imagens de fundo.

Bem, digamos que as origens da preocupação das bandas de Metal brasileiro com a cultura de seu próprio país têm raízes não muito velhas, tão pouco são recentes. Se formos falar de forma determinística, a primeira vez em que o SEPULTURA levou aos palcos adornos de palco que lembram a cultura indígena Pré-Colombiana na época de “Arise”. Estas figuras surgem no encarte do LP, como aqueles ídolos de pedra de origem Tolteca.  Não sei antes, sou sincero, mas esse seria o momento em que começa o Levante do Metal Nativo do Brasil.

Basicamente, a palavra “levante” neste texto tem a conotação de revolta, de oposição. Revolta contra o descaso, e oposição não no sentido de não receber a cultura de fora (o que seria uma tolice, já que o Brasil é um dos países mais mestiços do mundo), mas de rebuscar as raízes de sua própria cultura. Em suma: já que se fala tanto em vikings e celtas, bem como de autores europeus e americanos, por que não aproveitar a riqueza histórico/cultural/social de nosso país, seja nas coisas boas ou ruins, para suas músicas e letras?

Se formos falar em termos de história, o SEPULTURA continua sendo um pioneiro nesse sentido. “Kaiowas”, uma instrumental de “Chaos A.D.”, vem nos lembrar da luta do povo indígena no Brasil, em especial os Guaranis-Kaiowás. Em 2012, uma carta lembrou o número de suicídios entre esta etnia, um genocídio silencioso daqueles que lutam para sua terra não ser invadida e tomada por grandes senhores de lavouras ou criadores de gado. 

SEPULTURA da época de “Arise”.

Esta ligação do quarteto com a cultura dos índios se torna ainda mais forte em “Roots”. Aliás, não apenas a instrumental “Itsári”(aquela que o grupo gravou na Aldeia Pimentel Barbosa, da tribo Xavanti), mas todo o conceito visual e musical de “Roots”foi um autêntico mergulho na Alma Materdo Brasil. Basta olhar as letras e dar de cara com certas referências. Ou mesmo no vídeo de “Roots” e “Ratamahatta”. Nem mesmo a Ditadura Militar foi esquecida, bastando uma olhadinha em “Dictatorshit”.

Talvez a oposição dos fãs mais velhos na época (1996) tenha sido primordial para que este despertar nativo tenha demorado um pouco mais.

ANGRA da época de “Holy Land”.

Óbvio que o ANGRAtem sua colaboração com “Holy Land”, de 1996. Mas já haviam feito algo que buscava um pouco da nossa musicalidade em “Angels Cry” com um “insert” regional em uma das canções, mas a brasilidade aflora nos temas de “Holy Land”. De certa forma, poderíamos dizer que o quinteto paulista quase que adaptou a visão do escritor Camões em suas letras. O ponto de vista lírico é neutro, mas tende a observar a história da perspectiva do colonizador (o que não é errado, pois é apenas história).

“Roots” e “Holy Land” tiveram, ao seu modo, um impacto comercial forte e mostrou ao mundo um pouco da cultura mestiça de nosso país.

MIASTHENIA.

Mas podemos dizer que a revolta do Metal brasileiro começa mesmo em 1995. Neste ano, timidamente, o MIASTHENIAmostra a cara com sua Demo Tape ao vivo. Em “Tempos Negros”, já com algumas referências à cultura indígena Pré-Colombiana. Mas as lanças e arcos são erguidos em definitivo com “XVI”, de 2000. O próprio título já é uma referência ao início do processo de colonização da América do Sul pelos colonizadores, bem como a resistência dos povos ameríndios à chegada do colonizador. No álbum mais recente, “Antípodas”, o grupo conta, pela perspectiva dos nativos, a saga de Francisco de Orellana descendo o rio Amazonas de sua origem nos Andes até a foz, e a guerra da tribo guerreira das Icamaúbas.

Também na década de 90, surge um nome marcante do cenário brasileiro: OCULTAN, de São Paulo. Desde a Demo Tape “Regnus ad Exús” de 1996, a temática do grupo foca as entidades da Quimbanda, que pode ser descrita como sendo “um culto Necromântico, ela é uma síntese entre cultos africanos, bruxaria européia e elementos indígenas”, lembrando uma entrevista de Count Imperium (vocalista do grupo) para o Metal Samsara. Óbvio que o ponto de vista é blasfemo, mas a diferença: os exus tomam o lugar das figuras demoníacas de origem judaico/cristã, algo nunca feito até então. Hoje em dia, as letras da banda ganharam maior complexidade, mas a figura de Exu continua presente.

OCULTAN.

Com a chegada da segunda década do século XXI, esse rebuscar da cultura do Brasil (bem como figuras obscuras e momentos de nossa história) ganha mais força.

Se analisarmos com mais calma, vemos o ARANDU ARAKUAA de Brasília (DF) rebuscando suas raízes indígenas, como pode ser ouvido nos dois discos do grupo, “Kó Yby Oré” (2013), e “Wdê Nnãkrda” (2015), no que podemos chamar de Brazilian Folk Metal, uma vez que usam elementos musicais derivados da cultura indígena e letras em Tupi. O grupo chegou a ser centro de uma matéria da BBC.

ARANDU ARAKUAA.

Nessa mesma linha, embora ainda em estágios iniciais, também tempos o TUPI NAMBHÁ, também de Brasília, que em seu primeiro trabalho, o EP “Invasão Alienígena” (2017), mostra a visão dos povos Pré-Colombianos do Brasil em relação aos colonizadores, como se fosse uma invasão de seres extraterrestres. O que não deixa de ser uma verdade, já que a mesma visão do índio como “bárbaro, pagão e inculto” de espanhóis, portugueses, holandeses e franceses era devido ao bojo cultural desses.

Outro que vem para falar de suas raízes indígenas é o quinteto paulista VOODOOPRIEST, que toca Thrash/Death Metal. Capitaneado por Victor Rodrigues (ex-TORTURE SQUAD), o grupo mostra a força do sangue mestiço que fertiliza o solo do Brasil em “Mandu”, disco conceitual que trata da revolta indígena na capitania hereditária do Piauí entre 1712 e 1719. O líder da revolta: Mandu Ladino, um índio Arani que fora cristianizado e posteriormente vendido como escravo. A Revolta de Mandu Ladino (como é conhecido este movimento) nasce do rancor de Mandu ao ver a cultura de seu povo der tripudiada, e mais tarde, ao ver uma índia (irmã dele) sendo morta, e se estende por Pernambuco, Piauí, sertão de Maranhão e chegará até o Ceará. E nela já se percebe a ganância e maus tratos dos senhores da pecuária contra os povos nativos, algo comum até os dias de hoje (muitas vezes, com as bênçãos dos governos Federal, Estaduais e Municipais).

VOODOOPRIEST.


Imagem do vídeo de “Mandu”, do VOODOOPRIEST.

Do Rio de Janeiro, vem o quarteto TAMUYA THRASH TRIBE. Se no EP “United”, de 2012, já enfocavam temas históricos (em especial em “Immortal King”, cuja letra fala de Zumbi dos Palmares), um grito de consciência histórica/cultural é dado em “The Last of the Guaranis”(2016). Trechos cantados em Tupi-Guarani (“The Voice of Nhanderu (Von)”), canção gravada com coral de crianças da Aldeia Mata Verde Bonita (de Maricá-RJ) dentro de uma oca (“Oreru Nhamandú Tupã Oreru”), lembranças de Lampião (“Vinte e Cinco” e “Violence and Blood”), presença de Zazy Guajajara (uma poetisa cujo trabalho é feito em Tupi, sendo ela da etnia Guajajara Tenetehar, cuja presença vem da adaptação de um de seus poemas, “Háhé’m”, que significa “Gemido”), e mesmo a participação da Babalorixá Gleys Graden e seus ogãs, juntamente com Marcelo D2 na dobradinha “Brado de Xangô” e “Senzala/Favela”.

TAMUYA THRASH TRIBE com Zazy Guajajara. 

TAMUYA THRASH TRIBE em um evento em 2015.

E falando em história, podemos falar do HATE EMBRACE, grupo de Techno Death Metal de Pernambuco, que após um primeiro álbum focado em temas estrangeiros, faz em “Sertão Saga” (2014), seu segundo disco e um álbum conceitual, um mergulho na cultura do Nordeste ao tratar da história de Virgulino Ferreira da Silva, conhecido popularmente como Lampião. Além disso, muito das músicas regionais do Nordeste brasileiro, bem como a arte do Cordel, estão presentes. Vale um adendo: muitos afirmam ser Lampiãoum bandido comum, mas quantos de fato entendem a opressão dos senhores de fazenda sobre os mais pobres, bem como o descaso do governo federal (que só entrou na questão para mandar caçar e matar Lampião) e dos estados e municípios em promover políticas igualitárias de inclusão e sustento dos menos favorecidos.

HATE EMBRACE.

Capa de “Sertão Saga”.

Existem outros, como o ARMAHDA(SP), GANDAVO (PE), CANGAÇO (PE), MORRIGAM (AM), entre tantos outros. O KABARAH, finada banda de Black Metal de Niterói (RJ), apesar de não ser dedicado exclusivamente a temas brasileiros, tem em “Pytuna-Syk” (de sua primeira Demo Tape, “The True”, de 1998) uma canção cantada em Tupi-Guarani. Parece que, finalmente, o músico brasileiro vem tomando posse de sua herança, sem se sentir inferiorizado.

Não, não há preconceito contra Viking, Celtas ou Folk Metal europeu aqui. Este autor ouve e gosta destes estilos e temáticas, mas não tem medo ou vergonha das raízes culturais do Brasil. Aliás, tem orgulho dessa Alma Mater que tem sido escavada aos poucos e está crescendo.

Talvez, este levante tenha como origem a frase “e por que não?”, já que:

- Por que não usar temas Pré-Colombianos ao invés de Vikings?
- Por que não falar da história do nosso país, ao invés de falar de outros?

No fundo, muitas vezes somos levados ao desprezo às nossas raízes por culpa de ensinamentos grotescamente errôneos. Algumas coisas que já ouvimos:

- “O índio é cachaceiro e vagabundo!”: não, meus filhos não... O índio do Brasil vivia em harmonia com a natureza, pela qual nutre respeito (já que ela é divina na visão dele). Ele não extrai dos recursos naturais mais do que o necessário para a própria subsistência, algo que o consumismo em que vivemos condena veementemente. Você é manipulado para acreditar nesse tipo de mentira, uma vez que raramente temos a oportunidade de ver/ouvir/conviver com índios nos dias de hoje;

- “Cangaceiros eram bandidos e estupradores!”: não discordo da existência de crimes por conta dos cangaceiros independentes (que não seguiam ordem de quem quer que fosse, além do líder do grupo), mas penso que a polícia no sertão tinha as mesmas práticas cruéis (muitas vezes, piores que as dos próprios cangaceiros). Além do mais, para muitos, o cangaço independente não era uma opção por mera bandidagem de “quem não queria trabalhar”, mas a única saída para as muitas injustiças que acometiam o povo do Nordeste da época. Além do mais, narrativas dão conta que Lampião mantinha seus cangaceiros sob rígida disciplina. Infelizmente, muito desses conhecimentos são plantados por campanhas ideológicas tanto do governo como dos grandes fazendeiros.

- “Os negros têm que agradecer por terem sido escravos!”:Sim, já li/ouvi este tipo de coisa, baseada no pensamento que o povo africano era “bárbaro, inculto, pagão”, logo, a escravidão teria lhes dado noções de sociedade. Antes de tudo, é preciso entender que cada povo da antiguidade tinha sua própria noção de sociedade, valores e cultura. E tal julgamento se dá mediante à uma visão totalmente paralela ao pensamento do colonizador, que reconhecia apenas a si mesmo como “civilizado, culto e cristão”. Foi contra esse tipo de pensamento que Zumbi dos Palmares se ergueu.

Zumbi dos Palmares.

Há muitos pontos que poderiam ser narrados aqui, mas o texto perderia o sentido. No fundo, esta “rebelião” das bandas brasileira contra os modelos já estabelecidos e propostas de novos (que são bem vindos, pois aglutinam ainda mais cultura ao gênero) é algo saudável. Ele também gera conflitos internos, pois nos força a pensarmos fora da caixinha de ideias a que fomos condicionados por anos e anos. Para isso serve o levante do Metal nativo do Brasil.

Aliás, sendo sincero: o nome desse artigo, eu peguei o nome emprestado de um grupo de bandas do Brasil que visa justamente a valorização dos elementos de nosso país no Metal, o Levante do Metal Nativo. Não se trata de mais uma “panelinha” de bandas a causar divisões e problemas ao cenário nacional (como algumas por aí com suas regras), mas cujo trabalho é unir e fortalecer o uso este lado cultural/histórico no Metal brasileiro.

A nossa Alma Mater agradece... O Metal agradece...

E segue a rebelião, segue o levante...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

POSSESSED - Seven Churches (Álbum)


1985
Selo: Combat Records
Nacional

Tracklist:

1. The Exorcist
2. Pentagram
3. Burning in Hell
4. Evil Warriors
5. Seven Churches
6. Satan’s Curse
7. Holy Hell
8. Twisted Minds
9. Fallen Angel
10. Death Metal


Banda:


Jeff Becerra - Vocais, baixo
Mike Torrao - Guitarras
Larry Lalonde - Guitarras
Mike Sus - Bateria


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Youtube:
Instagram:
Bandcamp:
Assessoria:

E-mail:

Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia

A primeira metade dos anos 80 foi um verdadeiro “Big Bang” em termos de Metal. Tudo o que os 3 pilares do Metal criaram (BLACK SABBATH, JUDAS PRIEST, MOTORHEAD) haviam criado nos anos 70, ganhou ecos e se tornou mais diversificado, surgindo os primeiros subgêneros do Metal. Entre 1983 e 1985, surgiram as primeiras indicações do que viria a ser o Death Metal, com várias bandas no eixo EUA-Europa fazendo suas contribuições. Friso para o caro leitor que, na época, os limites estéticos entre as vertentes de Metal eram muito tênues. Mas bandas como VENOM, SLAYER, METALLICA, HELLHAMMER/CELTIC FROST, KREATOR, DESTRUCTION, SODOM, BATHORY e outros ajudaram muito a lançar as bases do que seria o Death Metal. São bandas que, junto com os pilares, estavam influenciando os jovens. Em 16 de outubro de 1985, veio ao mundo um dos discos mais importantes do Death Metal, “Seven Churches”, disco de estréia do quarteto Norte-Americano POSSESSED.

Mas surge a pergunta: podemos realmente dizer que ele é o marco zero do Death Metal, como muitos afirmam?

Antes que comecem o mimimi insuportável e os atos de contestação, peço que o leitor se atenha apenas aos fatos.  

Antes de tudo, é preciso lembrar que nos EUA, MANTAS na Flórida (que viria a se transformar no DEATH anos depois) e as primeiras encarnações do MASTER em Chigado são do mesmo ano de fundação do quarteto de San Francisco (este último era para ter lançado seu primeiro disco também em 1985, mas a Combate Records o deixou na gaveta). E as primeiras Demo-Tapes do DEATH (chamada “Death by Metal”) e do POSSESSED (a famigerada “Death Metal”) são do mesmo ano, sem maiores detalhes. Se pularmos para a Europa, o HELLHAMMER lança sua primeira Demo, “Death Fiend”, em junho de 1983, o mesmo valendo para o inglês ONSLAUGHTcom sua “Demo 1” de 1983 (a banda se dizia na época uma banda de Death Metal, como consta no encarte de “Power from Hell”). Se colocarmos o SODOM na equação, “Witching Metal” é de 1982. Desta forma, vemos que o rótulo de “criador” do Death Metal não é lá muito justo, já que o estilo não foi construído apenas pelo POSSESSED.

Por outro lado, o POSSESSEDnão se dizia uma banda de Death Metal. Aliás, dizer que eles eram influenciados pelo SLAYER ou VENOM chegava a soar como ofensa para os rapazes. Conforme entrevistas de 1986 e 1987, eles se diziam uma banda de Thrash Metal influenciada por EXODUS, METALLICA e bandas de Hardcore.

Sim, o tema é bem confuso e cheio de polêmicas. Mas seja lá o lado que assumir nessa peleja (embora o mais certo seja deixar isso para lá, pois é passado), não se pode negar o quanto “Seven Churches” é influente para a cena Death Metal americana, e mesmo mundial.

O que temos no disco são dez canções que estão consolidando o Death Metal inicial, lhe dando uma característica própria. Óbvio que o DEATH veio a dar uma ajustada melhor nas coisas com “Scream Bloody Gore”e “Leprosy”, mas o trabalho de Jeff Becerra (na época, com 17 anos), Mike Torrao (21 anos), Larry Lalonde (17 anos) e Mike Sus (20 anos) iria definir as raízes da escola Norte-Americana de Death Metal. Nas palavras do saudoso Chuck Schuldiner, “Seven Churches” é “um disco seminal para o Death Metal”.

O que se ouve em “Seven Churches”: uma banda bem jovem ainda, mostrando uma energia descomunal, uma garra diferente, e uma visão de que, naqueles anos dourados, quanto mais extremo, rápido e distorcido, melhor. Mas não se pode negar que os quatro possuíam boa técnica, já que em termos de riffs, o POSSESSEDé um mestre em gerar uma muralha compacta de bases distorcidas e solos doentios. A bateria tem boa técnica, enquanto o baixo fica mais preso à marcação, enquanto os guturais irão definir um molde para o futuro. Se eles não se achavam uma banda de Death Metal, imaginem se eles se dissessem como tal...

A produção do disco ficou nas mãos de Randy Burns (que ainda tocou teclados na introdução de “The Exorcist” e “Fallen Angel”, e tal afirmação deve estar fazendo o estômago de muito true se virar, mas a verdade é assim). É a sonoridade característica que muitos grupos usarão no futuro, brutal e crua na medida certa, mas com a dose de clareza necessária para não transformar “Seven Churches” em uma massa sonora doentia e sem definição sonora. Talvez alguns fãs gostassem de algo mais nessa linha, mas tenhamos em mente: o quarteto se dizia uma banda de Thrash Metal na época.

A capa é bem simples: preta, com o logo da banda e o nome em vermelho. Um detalhe muito legal da versão em vinil da época (que mesmo as primeiras edições nacionais possuíam) era o contraste em alto relevo. Algo bem diferente para aqueles tempos.

Contracapa da versão em vinil de  “Seven Churches”

Musicalmente, não chega a ser um pecado dizer que o POSSESSED era uma banda adiante de seu tempo. Se considerarmos “Seven Churches”um disco de Death Metal (e não o que a banda dizia), todos os elementos que MORBID ANGEL, DEICIDE, CANNIBAL CORPSE, AUTOPSY e outros irão usar e abusar alguns anos depois são apresentados aqui. O futuro começou em nesse disco. Até visualmente eles influenciaram muitas bandas (o próprio SEPULTURA na época de “Morbid Visions” usava um visual bem parecido), como ainda influenciam até hoje.

Entre 1985 e 1987, várias resenhas achincalharam com “Seven Churches”. “Repetitivo”, “barulhento”, “extremo demais” foram alguns dos adjetivos usados. Algumas publicações norte-americanas foram mais generosas. Este autor não concorda ou discorda delas, apenas possuindo uma opinião diferente: abordar esse álbum não é algo simples nem mesmo nos dias de hoje, ainda mais na época de seu lançamento. Mesmo porque ele era extremamente brutal para aqueles dias. Mas em termos muito particulares, gosto de dizer que 80% desse disco é mais que satisfatório, mostrando talento inegável em faixas como “The Exorcist” (reparem nos momentos instrumentais antes da primeira sessão de solos, e vejam o que eu chamo de muralha de riffs de guitarra claramente), a brutalidade sonora esmagadora de “Burning in Hell” e “Seven Churches” (se repararem bem, a base rítmica mostra uma coesão de primeira, mas a ateria mostra uma técnica muito boa), a explosão de crueza sonora de “Satan’s Curse” e “Fallen Angel”  (vejam como os vocais se encaixam perfeitamente, com boa noção de tempo), e a mais elaborada “Twisted Minds”, que mostra um trabalho técnico que viria a nortear “Beyond the Gates” e o EP “The Eyes of Horror”. Agora, falar de “Death Metal” chega a ser uma honra: é o hino do gênero, com guitarras excelentes, a solidez de baixo e bateria (especialmente na parte instrumental antes dos solos), e vocais fantásticos.

Óbvio que muitos fãs até hoje reclamam das resenhas da época, mas me dou o direito a uma pergunta a cada um deles: se reclamam que os escritores nada entendiam porque “Seven Churches” era algo novo para a época, como querem reclamar tanto dos gêneros mais modernos do Metal? Não é a mesma coisa?

A língua de ontem é o chicote que bate no rabo amanhã, logo...

Se “Seven Churches”não for o marco zero do Death Metal (deixo a vocês, caros leitores, o direito de terem suas próprias ideias sobre este assunto, e não aceitem que outros fãs mais velhos ou outros lhes digam algo como verdade absoluta), é um de seus maiores clássicos. E uma pena que eles não seguiram este caminho dos discos seguintes (os já citados “Beyond the Gates” e “The Eyes of Horror”). Mas como o grupo está de volta e um disco novo chega ano que vem, resta a esperança de que algo nessa linha esteja a caminho.

Jeff Becerra (vocais, baixo)

Mike Torrao (guitarras)

Larry Lalonde (guitarras)

Mike Sus (bateria)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A Desgraça de Orellana contada pelo Metal extremo - Entrevista com o MIASTHENIA


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


O Brasil é um centro de formação de ótimas bandas de Metal, em todas as vertentes do estilo. Mas ainda estamos engatinhando no que tange falar de nossa cultura, e muitas vezes, o brasileiro parece sentir vergonha de suas raízes. Mas existem aqueles que resistem, que sentem orgulho das raízes pagãs dessa terra manchada de sangue e ganância do colonizador, e que promovem um levante nativo. Entre eles, o pioneiro MIASTHENIA, que desde 1994 vem lutando no underground, e que agora, lança “Antípodas”, seu mais recente álbum, onde a temática central é a saga de Francisco de Orellana contada sob a perspectiva das guerreiras Icamiabas.

Aproveitando o lançamento do disco, tivemos a oportunidade de entrevistar Hécate, tecladista/vocalista do grupo, e mergulhar mais fundo no contexto lírico/musical de “Antípodas”.


BD: Salve, Hécate. Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevistar você. Logo de início: como e quando teve contato com a saga de Francisco de Orellana, e como surgiu a ideia de abordar esse tema? Aliás, a clara impressão que tive é de que esse tema permeia todas as letras, criando um disco conceitual, estou certo?

Hécate: Eu agradeço pela sua entrevista e apoio ao MIASTHENIA. Sou Professora e Doutora em História e estudei as crônicas escritas pelos conquistadores/colonizadores sobre os ameríndios nos séculos XVI e XVII, então tive contato com essa obra quando já quando realizava o Mestrado (1999-2002), especialmente através dos estudos de minha ex-orientadora sobre a imagem das guerreiras amazonas na história. No álbum “Batalha Ritual”(2004) já tinha uma música (“Zôster”) sobre as amazonas, então eu já vinha também me preparando e lendo sobre isso. Mas como você bem observou, essa história de Orellana e das amazonas inspirou todo o álbum.


BD: Tanto no encarte do CD como em uma declaração em uma nota de imprensa, o significado da palavra “Antípodas” é explicado por vocês. Mas como cito acima, a luta das Icamiabas contra Orellana é um tema recorrente nas letras. Existe alguma ligação entre esses dois temas que poderia nos explicar?

Hécate: Sim, tudo está conectado, porque Antípodas se trata da forma como os seres (vistos como amazonas/icamiabas, canibais, cinocéfalose iwaipanomas) confrontados na América representam o que há mais selvagem, pecaminoso, abominável e demoníaco no imaginário cristão dos conquistadores dos séculos XV e XVII. Todos esses seres foram representados iconograficamente nos antigos mapas onde a América figurava como território selvagem e inóspito, como uma Antípoda (oposição) do mundo cristão e civilizado. O álbum é uma crítica a essa visão cristã, de forma poética busca desvelar a vontade de poder e dominação daquilo que era diferente e inconcebível a uma sociedade colonial cristã que se tentava implantar na América.  


BD: Aliás, vamos direto e reto ao assunto: muitos fãs não fazem a mínima idéia de quem elas são, logo, que tal uma explicação sobre elas?

Hécate: As amazonas são mulheres guerreiras que aparecem em várias relatos desde a Grécia Antiga. Com a conquista da América, os europeus se depararam com inúmeras sociedades onde as mulheres poderiam atuar como guerreiras e lideranças tribais, e isso no imaginário dos conquistadores só poderia encontrar algum sentido e explicação nas suas antigas tradições de mulheres míticas e abomináveis que escapavam dos padrões de feminilidade frágil, submissa e que seriam inimigas dos homens e da moral. Logo associaram tais mulheres a essas que já povoavam o imaginário cristão/europeu há séculos. O problema é que nessa associação as mulheres indígenas foram convertidas em bruxas, feiticeiras e seres ainda mais pecaminosos, por se conectarem com um tipo de sociedade matriarcal que devia subverter a norma cristã, ou seja, constituindo-se em um pesadelo e ameaça. Não por acaso, a violência colonial/patriarcal usou de tais imagens para dominar e evangelizar os indígenas. As icamiabas seriam mulheres guerreiras que viviam sem a presença de homens em sua comunidade na região do rio Amazonas em 1542 (época da expedição de Orellana pelo grande rio), que, aliás, recebe esse nome por conta de uma série de relatos dos próprios indígenas que deviam tributos ou eram aliadas dessas mulheres. Orellana associou essas mulheres às antigas amazonas de relatos míticos gregos. Assim, na América os antigos mitos encontravam realidade e acabaram por servir aos interesses colonialistas de dominação, demonização e mitificação de qualquer tipo de sociedade onde as mulheres pudessem ser independentes e guerreiras. Desde então, negou-se a presença de mulheres guerreiras na história, já que associadas ao universo mítico, como seres inconcebíveis. Enfim, essa é a ótica cristã e patriarcal, mas outras histórias existem nas tradições ameríndias e são essas que nos inspiram. 


BD: Ao mesmo tempo, é interessante notar o uso da visão dessa parte da história por uma nova perspectiva, diferente da usada pelo padre Gaspar de Carvajal. Como essa ideia de mudar a visão do colonizador para as guerreiras surgiu?

Hécate: Basta mudar de perspectiva histórica e considerar as sociedades indígenas como sujeitos legítimos de produção de conhecimento histórico também, pois a história ensinada em nossas escolas é a história do ponto de vista cristã, colonial e europeu que tende a apagar qualquer diversidade e especialmente o poder e liberdade das mulheres. Por longo tempo eu estudei o imaginário cristão/colonial sobre a América e vi suas relações com o poder, por isso venho me dedicando também ao estudo das concepções dos próprios indígenas, porque elas nos trazem outras perspectivas históricas, ou seja, “histórias do possível” daquilo que foi apagado e tido como mítico/impossível nas narrativas históricas cristãs. Nós precisamos libertar o nosso passado, para libertar também nossas identidades no presente! 


Hécate (foto: Patty Freitas)
BD: Sobre os aspectos técnicos de “Antípodas”, percebe-se que o trabalho de Caio Cortonesi em termos de produção, mixagem e masterização deu uma evoluída em relação ao que ouvimos em “Legados do Inframundo”. Ou seja, a sonoridade da banda está crua como o estilo que fazem, mas limpa e bem definida para as melodias e arranjos da banda fiquem evidentes. Como foi trabalhar com Caio mais uma vez? E até onde ele interferiu em algum aspecto junto a vocês?

Hécate: É sempre uma grande honra e satisfação trabalhar com o Caio, porque ele respeita e entende muito bem nossa proposta temática e musical. Além disso, ele vem evoluindo cada vez mais enquanto técnico de áudio e isso se reflete em nossos álbuns. Em vários momentos ele também participou (nas vozes, escolha de efeitos e timbres) e acrescentou algumas ideias ao álbum, mas sempre com enorme sintonia conosco, assim confiamos bastante em seu trabalho e somos muito gratos a ele por todo esse trabalho e dedicação ao MIASTHENIA.  


BD: Além disso, seguindo uma tendência que “Legados do Inframundo”já mostrava, “Antípodas” tem canções mais curtas e é o disco de vocês com menor duração. Isso é algo intencional, veio do amadurecimento da banda ou teria outra origem que não sabemos?

Hécate: É intencional, porque com o tempo vamos mesmo amadurecendo e avaliando o que já fizemos. A intenção não era quantidade, mas sim qualidade.


BD: Fugindo um pouquinho da atualidade, “XVI” e “Batalha Ritual” foram relançados em um duplo CD este ano. Qual é a sensação de verem os dois discos do MIASTHENIA relançados? Isso mostra o interesse dos fãs mais jovens na banda, concordam?

Hécate: Sim, com certeza. A sensação foi de orgulho, porque é parte da nossa história, e ver isso concretizado nesse relançamento é muito importante para nossa existência, nos fortalece.


BD: Ainda pegando o gancho do CD duplo, existe a possibilidade de “Antípodas” ter lançamento em outros países?

Hécate: Acho que sim, o “Legados do Inframundo” foi relançado na França pela Drakkar com as letras traduzidas para o inglês no encarte. Mas, por enquanto estamos satisfeitos com a repercussão da edição nacional do “Antípodas”, quem sabe aparece uma oportunidade também de relançamento fora do Brasil.


BD: Voltando à temática de “Antípodas”, se sente a força do lado feminino surgindo naturalmente, não só pela temática centrada nas Icamiabas. Como esta característica foi se delineando, surgindo e amadurecendo no disco?

Hécate: Realmente essa temática surge de um desejo de trazer à tona o que tanto me motiva enquanto mulher em uma banda de metal a escrever letras de resistência indígena ao cristianismo. Reflete minhas perspectivas feministas, pagãs e anti-coloniais no campo da História, da política e das relações de gênero. É fruto de uma série de leituras históricas em busca de exemplos de mulheres indígenas na América pré-colombiana e colonial que escapavam dos padrões prescritos para as mulheres pela cristandade. A princípio pensei em fazer uma letra para cada uma destas personagens, e dai fui juntando textos e fontes, mas com o tempo fui me aprofundando também nos estudos decoloniais/pós-coloniais e me surgiram muitas reflexões e inspirações na abordagem desse tema, então o álbum não ficou exclusivamente restrito às amazonas, porque outros personagens também aparecem, endossando um contexto muito maior de negação da diferença confrontada na América.

 
BD: Uma pergunta um pouco triste e chata, mas que precisa ser posta na mesa: Hécate, é de conhecimento de muitos que você é Ph.D. em História, e mesmo com o resgate da cultura pagã Pré-Colombiana que está cada vez mais intenso no Brasil, vemos momentos lamentáveis na atualidade: censura à exposições de artes, a queima de bonecos da Filósofa Judith Butler por setores ultraconservadores (e pasme: aos gritos de “queimem a Filósofa”), a luta contra os direitos individuais das mulheres, da comunidade LGBTQ, dos indígenas e outras, etnias, ou seja, o recrudescimento que beira o TFP dos anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964. O mais triste: ver muitos fãs de Metal se alinhando com esses valores. Qual a sua opinião, como música, professora, enfim, como pessoa culta diante de tanta sandice, de tanta intolerância?

Hécate: Eu me revolto também com tudo isso, porque reflete muita incoerência na cena Metal. Judith Butler para mim é uma grande referência na Filosofia, porque me baseio nas suas discussões sobre corpo e gênero em minhas pesquisas acadêmicas, o seu pensamento é subversivo e desconstrutivo e isso sim é o que me inspira a romper com tanto dogmatismo, fanatismo e ignorância em torno de ideias e concepções que tentam dominar o nosso ser e nossas relações sociais. O Metal deve libertar as pessoas, surgiu como forma de rebeldia e não deve ser usado como forma de opressão. Foi isso o que me atraiu para o Metal, mas hoje temos que lutar para manter essa significação. O MIASTHENIA sempre teve uma postura abertamente antinazista dentro do cenário Black Metal e isso, anos atrás, nos envolveu em muitas brigas e confusões, mas resistimos. Infelizmente o cenário do Metal está cada vez mais cheio de pessoas com ideias extremamente fundamentalistas e conservadoras: sexistas, homofóbicas e racistas. Boa parte destas pessoas não tem consciência do quanto seus valores em relação a essas questões se alinham com interesses de grupos, instituições e políticos cristãos que no fundo odeiam todos nós, só visam o poder e detestam a essência do Metal. Adoro a expressão “o Diabo é o pai do rock!”, então que fiquem longe dele aqueles que o temem!


Nygron (Foto: Ivanei)
BD: Vocês liberaram dois vídeos: um lyric vídeo para “Antípodas”, e um vídeo oficial para “Coniupuyaras”. Como estas canções foram escolhidas, e principalmente, como foi a produção e gravação de “Coniupuyaras”? E me permitam o elogio: o resultado final é fantástico!

Hécate: Obrigada. A escolha não foi aleatória, tudo foi pensado em termos de som e imagem e que era possível de se fazer, porque algumas músicas são mais cinematográficas que outras. A música “Coniupuyaras” teve sua letra pensada já em sintonia com as imagens. Foram meses idealizando o local, figurino e roteiro desse clipe, e ficamos muito satisfeitos com o resultado, o Caio fez excelente trabalho de roteiro, direção e edição, novamente ele captou muito bem nossa proposta. Gravamos o clipe aqui mesmo em Brasília, dentro de uma área de proteção ambiente há menos de dois km de nossa casa, em lugar fantástico para nossa proposta. Já o lyric vídeo de “Antípodas”foi escolhido e pensado também em termos de sua relação com imagens, a letra era perfeita para inclusão de antigos mapas e iconografias dos séculos XV e XVII que traduzem o imaginário cristão colonial sobre a América enquanto território selvagem, povoado por amazonas, canibais, cinocéfalos e iwaipanomas, dentro outros seres estranhos e aterradores.


BD: Voltando ao MIASTHENIA, e sobre shows? O show de 08/12 promete, mas existem possibilidades para outros estados, e mesmo fora do Brasil?

Hécate: Sim, não somos uma banda de longas turnês e muitos shows, porque temos nossas carreiras profissionais paralelas à banda. Mas na medida do possível, estamos planejando uma turnê e em breve teremos novidades para 2018.


BD: Bem, é isso. Agradeço demais pela entrevista, desejo todo sucesso do mundo à banda, e, por favor, deixe sua mensagem para o público.

Hécate: Eu agradeço pelo interesse e oportunidade de expor aqui um pouquinho de minhas concepções. Vida longa ao Metal Samsara! Para aqueles que ainda não conhecem nossa música, convido a navegar nos links logo abaixo. Em breve teremos disponível pela Mutilation a versão de “Antípodas”em LP (vinil). Força e honra sempre!


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E-mail: miasthenia.horda@gmail.com

Assista aos vídeos de “Coniupuyaras” e “Antípodas”.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

TERROR EMPIRE - Obscurity Rising (Álbum)


2017
Importado

Nota: 9,7/10,0 


Tracklist:

1. Obscurity Rising
2. You’ll Never See Us Coming
3. Burn the Flags
4. Times of War
5. Meaning in Darkness
6. Holy Greed
7. Lust
8. Death Wish
9. Feast of the Wretched
10. Soldiers of Nothing
11. New Dictators


Banda:


Ricardo Martins - Vocais
Rui Alexandre - Guitarras
Nuno Raimundo - Guitarras
Rui Puga - Baixo
João Dourado - Bateria


Contatos:

Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


O que vem a ser o que chamamos de Thrash Metal moderno?

Embora as palavras variem de uma definição para a outra, podemos dizer que é o mesmo estilo que foi criado nos primeiros anos da década de 80, apenas com maior agressividade e timbragem sonora mais moderna (sem cair no Metalcore ou no New Metal). A sonoridade é rascante, bruta e cheia de energia, mas preservando a estruturação melodiosa. E um dos melhores representantes do estilo é o TERROR EMPIRE, de Coimbra (Portugal), que após o EP “Face the Terror” de 2012 e o álbum “The Empire Strikes Black” de 2015, retorna à carga destilando violência em forma de música com “Obscurity Rising”.

Se o Thrash Metal se caracteriza por sua agressividade escopada pela melodia, se preparem, pois o quinteto não está para brincadeiras. Ainda mais agressivo e brutal que antes, incorporando toques de Death Metal em alguns pontos, eles voltaram com ainda mais sede de sangue que antes. Mais bem trabalhado, mais técnico e doentio de uma forma bem feita, se preparem, pois eles mostram um arsenal musical de primeira, com riffs bem trabalhados e cheios de energia, base rítmica com muito peso e técnica, e vocais que usam uma boa diversidade de timbres. Está sólido como uma rocha, mas sempre muito bem feito, e com uma energia empolgante dos diabos, sem sombra de dúvidas!

A monstruosidade já começa na produção. O baterista João Dourado acompanhou a gravação, produziu e masterizou o disco, tudo feito no Golden Jack Studios, em Coimbra. E o nível de clareza é bem alto, pois se entende tudo que o quinteto está tocando, os timbres foram escolhidos para soarem agressivos e claros, mas se preparem, pois com essa sonoridade seca e de alto nível, é garantia que vem uma tempestade Thrasher de causar dores de pescoço.

A arte da capa é de André Coelho. Para quem não sabe, é o artista que criou a capa de “Black Force Domain”, do KRISIUN, fora outros trabalhos. E na simplicidade, criou algo que fica explicita o que se ouve no disco.

E se preparem, pois o TERROR EMPIRE veio disposto a mostrar que tem tudo para ser um dos nomes mais relevantes do Thrash Metal!

10 hinos à violência nos espera, todos excelentes. Mas a vertigem causada pela velocidade e brutalidade de “You’ll Never See Us Coming” e suas passagens cheias de elementos de elementos extremos (com destaque para o ataque de riffs e solos de guitarras), o assalto explosivo e bem trabalhado de “Burn the Flags” (que vocais de primeira em meio ao caos destrutivo da banda), a cadência opressiva de “Times of War” (como baixo e bateria mostram boa técnica e pegada de peso nessa canção), a complexidade de alguns momentos em “Holy Greed”, as partes ríspidas e extremas de “Lust”, o hino ao slamdancing em “Death Wish”, e a porradaria desenfreada de “New Dictators”, que tem solo de guitarra do convidado especial Gus Drax (do SUICIDAL ANGELS). Mas não deixem de ouvir as outras canções, pois todas são puro esmaga-tímpanos!

Não tem jeito: Portugal está se tornando cada vez mais um verdadeiro criadouro de bandas de alto nível. E o TERROR EMPIRE já pertence ao primeiro time, só precisam ouvir e entenderão o que eu digo.